A imperfeição como prova de humanidade

 A marca da mão humana virou uma espécie de certificado de autenticidade.

Tem uma coisa curiosa acontecendo no design: quanto mais a tecnologia torna tudo perfeito, mais valor parecem ganhar justamente as coisas que não são. Uma costura que não é exatamente reta. Uma pincelada que deixa aparecer a mão de quem pintou. Uma cerâmica em que nenhuma peça é idêntica à outra. Uma fotografia que parece mais pintura do que fotografia. Um móvel antigo com uma forma meio estranha, impossível de confundir com os milhares de outros produzidos em série.

Talvez seja uma reação natural a um mundo em que já conseguimos fabricar quase qualquer imagem e, em breve, quase qualquer objeto, com uma precisão impressionante. Quando a perfeição pode ser produzida infinitamente, a imperfeição começa a funcionar como prova de origem.

Como escreveu Barr Balamuth em um ensaio recente sobre o assunto: “human fingerprints are the new luxury”. A marca da mão humana virou uma espécie de certificado de autenticidade.

É o que aparece, por exemplo, no trabalho da Story mfg., que transforma justamente as irregularidades do processo em parte do produto: tingimentos naturais que criam variações de cor, bordados feitos à mão e até costuras propositalmente “tortas”, inspiradas nas roupas vintage. A marca não tenta esconder as marcas do processo, pelo contrário, faz questão de deixá-las visíveis. Cada peça carrega pequenas diferenças que funcionam quase como uma assinatura de quem a fez.

E essa vontade de encontrar sinais de humanidade não está restrita à moda. Ela começa a aparecer também na estética que estamos escolhendo para nossas casas e até nossas marcas.

Depois de anos de minimalismo, do chamado blanding e de identidades visuais que pareciam cada vez mais iguais — fontes neutras, embalagens limpas, logos discretos — existe uma vontade crescente de personalidade.

Talvez seja por isso que o Art Deco esteja voltando com tanta força. Uma matéria da Dezeen mostrou que as vendas de peças Art Deco na plataforma Vinterior chegaram a triplicar no segundo semestre de 2024. Mais do que uma simples nostalgia pelo estilo, existe uma explicação interessante: o Mid-Century Modern, que dominou o mercado de móveis usados durante anos, foi tão reproduzido pela indústria que acabou ficando fácil demais de replicar.

Uma cadeira que parece poder estar em qualquer apartamento do mundo talvez já não diga tanta coisa sobre quem mora ali.

Uma peça vintage, uma luminária estranha, uma mesa herdada, uma pintura que não combina perfeitamente com o resto da sala, essas coisas contam uma história. Têm uma certa excentricidade. E, principalmente, parecem ter sido escolhidas por alguém, e não por um algoritmo de tendências.

É daí que vem uma estética que gosto de pensar como um tipo de maximalismo sentimental: não necessariamente mais coisas, mas mais referências. Mais memória, textura, cor, história e personalidade.

A casa deixa de ser um showroom de uma determinada estética e volta a parecer uma casa.

O mesmo movimento está acontecendo nas marcas. Campanhas começam a incorporar pintura, ilustração, texturas e imagens que parecem quase feitas à mão. E existe uma razão bastante contemporânea para isso tudo: a inteligência artificial.

Se qualquer pessoa pode gerar uma imagem tecnicamente perfeita em alguns segundos, ser tecnicamente perfeito deixa de ser um grande diferencial. A pergunta passa a ser outra: onde está a autoria? Quem fez isso? Quem teve a ideia? Que processo aconteceu para chegar aqui?

É por isso que talvez vejamos cada vez mais aquilo que Rachel Karten chamou de “proof of reality”: conteúdos que mostram o que aconteceu por trás da imagem. O fotógrafo, o diretor, o cenário, a equipe, o processo artesanal, o making of. O backstage deixa de ser apenas um conteúdo complementar e passa a funcionar como prova. Se uma imagem pode ser criada sem que nada tenha acontecido diante de uma câmera, mostrar que aquilo realmente aconteceu ganha valor.

E isso explica também por que marcas de luxo têm investido tanto em conteúdos “inside the atelier”: mostrar quem fez, como fez e quanto trabalho existe por trás de uma peça, como uma maneira de provar que existe uma mão humana ali.

No fundo, todas essas tendências parecem apontar para a mesma coisa.

Estamos entrando em uma época em que ser real pode ser mais interessante do que parecer perfeito.

A textura que não conseguimos reproduzir exatamente. A peça que não existe em mil versões iguais. A imagem que carrega a marca de quem a produziu. A casa que não parece saída de um catálogo. A marca que tem uma opinião estética tão particular que não poderia ser confundida com outra.

Talvez a próxima grande forma de luxo não seja a perfeição e sim, a evidência de que alguém esteve ali.