Existe algo de muito especial em passar alguns dias pensando o futuro com as pessoas que estão ativamente envolvidas em construí-lo. Pela segunda vez consecutiva, participamos do Web Summit Lisboa, um dos maiores eventos de tecnologia do mundo.
Entre 71,368 participantes (!!!) de 157 países, startups, palestrantes e robôs, nós, da EYN, que estamos comemorando cinco anos da nossa criação, navegamos pelo evento com um objetivo principal: refletir sobre a relevância da curadoria humana em um mundo cada vez mais automatizado – a nossa versão da pergunta mais comum do evento e o maior dilema do nosso tempo: a IA vai nos substituir?
Uma das estrelas da noite de abertura, a lenda do tênis Maria Sharapova, provocou uma reflexão importante: “A IA ajuda os atletas a compilar e analisar dados, prever padrões. Quanto mais dados temos, mais aguçados são os instintos.”
Ela também lembrou que, para os fãs, isso transforma a experiência: saber tudo sobre o jogador, o histórico, do confronto, o favorito — e o porquê — amplia o prazer de acompanhar. O dado aprofunda a relação, não substitui a emoção.
Na sequência, a pessoa mais seguida do TikTok, Khaby Lame, resumiu em pouquíssimas palavras (afinal, é o ícone da silent comedy na internet) qual é o futuro da creator economy: “eu simplesmente quero fazer as pessoas rirem, o resto é consequência. É seguir criando e não se limitar ou se comparar”. Ou seja: autenticidade e consistência continuam sendo o “segredo”.

Em muitos talks sobre cultura e gen-z, com fenômenos como Grace Beverley e Josh Richards, originalidade e senso de pertencimento continuaram no centro das conversas. “Seja obcecado pelo seu produto / solução, encontre o seu nicho e a sua audiência vai te seguir aonde for”, disse Beverley. Já o especialista Joey Camire, citando um case do Hinge (aplicativo de dates): “essa geração busca identidade. Eu vou me rotular com 17 tags, mas, no fim, só estou procurando alguém que me ame pelo que eu sou”.
É sobre pertencimento.
No palco principal, o CMO da Meta — sim, usando os Ray-Ban Meta Smart Glasses — afirmou: “O futuro será de mais conexão, com o suporte da tecnologia.”
E, logo depois, a CEO do OnlyFans cravou o que virou quase um mantra de alguns participantes do evento: “Quanto mais formos guiados por IA, mais vamos desejar o humano.”
Um dos momentos mais simbólicos foi a presença de Tim Berners-Lee, o próprio criador da World Wide Web, que lançou recentemente o livro This is For Everyone, muito elogiado nos corredores do evento. Nada de nostalgia: ele fez um alerta. Para Berners-Lee, a web se transformou em um espaço “muito tóxico e polarizante”. Mas, ao contrário do pessimismo que costuma dominar esse debate, ele ofereceu um caminho: um verdadeiro reset.
Sua defesa é clara: devolver às pessoas o controle dos próprios dados por meio de tecnologias mais éticas, descentralizadas e com autoria individual. Segundo ele, é a combinação entre IA + dados + responsabilidade que pode tornar a internet um espaço mais saudável. A questão não é “a IA vai destruir tudo?”, mas como programamos, regulamos e orientamos os sistemas que a alimentam.
Essa discussão também apareceu em talks envolvendo Hollywood — em especial uma com Joseph Gordon-Levitt, que há anos defende remuneração justa e verdadeira autoria para criadores no ambiente digital. A maior indústria de entretenimento do mundo deixou claro que a IA não representa o fim da criatividade, mas um novo começo. A tecnologia tem acelerado processos, democratizado a produção e permitido que criadores independentes façam o que antes só grandes estúdios tinham fôlego para realizar. (Vale ver os vídeos criados com o Arcana Labs — uma amostra do que essa nova fronteira torna possível.)
O consenso foi simples e poderoso: a IA deve ampliar a visão humana, não substituí-la. Ela é ferramenta, não autora. A tecnologia expande, escala e acelera — mas é a sensibilidade humana que dá intenção, profundidade e significado.
Três grandes movimentos que nos ajudam a prever o futuro das mídias sociais ficaram claros no Web Summit.
1. Comunidade é destino — não tática
Plataformas que crescem não são as que tentam “viralizar”. São as que entendem que pessoas querem pertencer. A grande parte das Startups apresentadas no painel, literalmente” chamado “The Future of Social Media” tinha um ponto em comum: criar rituais diários que aproximem, não algoritmos que dispersem. Por mais paradoxal que soe, a tecnologia é ferramenta para nos conectarmos e pertencermos.
2. IA como ferramenta dos profundamente humanos
A discussão deixou de ser “criatividade vs. máquina”.
Hoje, a pergunta é: como ampliamos nossa sensibilidade em vez de terceirizá-la?
A originalidade nasce da combinação inesperada. Da mistura improvável. Do repertório somado à sensibilidade. A máquina combina padrões. O humano combina contextos. E é nesse detalhe que mora o valor.
3. Curadoria é o antídoto para o excesso
Vivemos diante de uma avalanche diária de conteúdo — autêntico ou não, relevante ou não.
E, nesse caos, alguém precisa filtrar. Traduzir. Conectar.
A curadoria deixou de ser um “plus” para se tornar um serviço essencial.
O futuro da internet e das mídias sociais não passa por algoritmos implacáveis ou automações sem rosto — mas por curadoria consciente, por escolhas humanas, por responsabilidade e por comunidade.
A proposta da EYN dialoga diretamente com essa urgência de devolver a internet ao humano, transformando a avalanche de informação em um espaço de descoberta, crítica, prazer e pertencimento.