Uma vez, há anos, tive uma crise de depressão. Ela veio do nada, num dia qualquer, de céu azul e sol. Acordei na casa do meu então marido (namorado na época). O trabalho estava ok, as amizades, o relacionamento, a família, a saúde. Tudo parecia no lugar. Ainda assim, acordei chorando.
Acordei com um buraco no peito, uma dor profunda, um vazio difícil de nomear. Uma vontade de simplesmente permanecer ali, na mesma posição, chorando. Pensei que fosse algo físico — tireoide, talvez, que eu já acompanhava. Em nenhum momento passou pela minha cabeça que aquilo pudesse ser depressão. Mas era.
Talvez uma das coisas mais perversas dessa doença seja justamente essa: ela não pede licença. Não espera o “momento certo”. Não respeita contexto, conquistas ou estabilidade. Não precisa de um gatilho visível. Às vezes, ela simplesmente chega.
Eu tinha preconceito,e fiquei incrédula quando os exames da tireoide deram todos normais. Aquilo desmontava a explicação que eu queria. Tive que encarar outro diagnóstico. E, ainda na negação, meu pai, que me apoiou muito naquela época, me deu um livro para ler: O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, de Andrew Solomon.
Aquele livro me atravessou. Não como autoajuda, mas como mapa. Ele me fez entender a complexidade da depressão, suas múltiplas camadas, suas inúmeras facetas — químicas, psicológicas, sociais, existenciais. Me ajudou a aceitar, a tratar, a atravessar. E, desde então, me transformou também numa espécie de fiscal informal da conversa pública: corrigindo, sempre que possível, quem diz que depressão não existe, que é preguiça, frescura ou falta de força de vontade.
Solomon propõe uma distinção fundamental: tristeza, luto e depressão não são a mesma coisa. O luto tem trajetória. Ele dói, mas se move. A depressão, não. Ela estagna. Ela se infiltra na personalidade a ponto de parecer caráter. E talvez por isso seja tão difícil de tratar, porque não sabemos exatamente onde termina a pessoa e começa a doença.
No seu TED, ele traz uma ideia perturbadora: pessoas deprimidas acreditam ver a verdade. “Nada importa.” “Todos vamos morrer.” “Não existe comunhão real entre as pessoas.” Muitas dessas frases não são falsas. O problema é o peso absoluto que elas ganham quando a vitalidade desaparece. A verdade, sem energia, vira sentença.
Solomon observa que pessoas deprimidas tendem a ser mais precisas em certas avaliações da realidade. Menos ilusões, menos exageros positivos. A questão não é que vejam errado, é que veem sem filtro, sem amortecimento emocional. E viver sem esse amortecimento é insuportável.
Há também o silêncio. A depressão costuma ser um segredo de família, conjugal, social. Sustentar esse segredo consome energia, exatamente o recurso que já falta. O silêncio não protege. Ele corrói.
O próprio Solomon conta que caiu em depressão anos depois de viver perdas reais e profundas — a morte da mãe, o fim de um relacionamento, mudanças radicais de vida. Não foi no auge do sofrimento. Foi depois. Como se o corpo tivesse decidido cobrar uma conta atrasada.
É aí que ele deixa algo claro: a depressão não se apresenta como tristeza comum. Ela se apresenta como esgotamento da vida. Como perda de vitalidade. O oposto da depressão não é felicidade, é vitalidade. Não é estar alegre, é conseguir desejar, agir, se mover, se vincular.
Quando estamos deprimidos, até o que é simples se torna impossível. Atender uma mensagem. Almoçar. Tomar banho. Sabemos que não deveria ser tão difícil. Ainda assim, o corpo não responde. A mente não encontra saída.
Por isso a depressão é tão mal compreendida, porque ela fala a língua da filosofia, do sentido da vida, da finitude, da solidão, mas age como uma doença. Ela mistura lucidez com distorção. Faz perguntas legítimas, mas retira da pessoa a energia necessária para viver enquanto pergunta.
Solomon diz algo desconcertante: na depressão, não sentimos que vemos o mundo através de um véu cinza. Sentimos que o véu da felicidade foi retirado, e que agora vemos a verdade. O problema é que essa “verdade” mente. Ou, ao menos, mente por excesso.
Não é fraqueza. Não é drama. Não é falta de gratidão. Depressão é uma doença incapacitante, ainda tratada com ferramentas imperfeitas, caras, cheias de efeitos colaterais. Ainda assim, são melhores do que nada, e negar tratamento em nome de uma moral “natural” é crueldade disfarçada de virtude.
Talvez o aprendizado mais difícil, e mais honesto, seja este: negar a depressão não a enfraquece. Silenciá-la não a dissolve. Ao contrário. Afastá-la a fortalece. As pessoas que melhor atravessam essa experiência não são as que fingem que ela nunca existiu, mas as que conseguem aceitá-la como parte da própria história, sem transformá-la em identidade.
A depressão não ensina lições bonitas. Não é nobre. Não é desejável. Mas, quando não mata, pode ensinar algo brutal: como uma emoção pode ser mais real do que fatos. E como, apesar disso, ainda é possível escolher, às vezes com bravura, às vezes no automático, continuar.
Como diz Solomon, agarrar-se às razões de viver nem sempre é um gesto grandioso. Às vezes, é apenas isso: agarrar-se.