Miniature people connected with arrows. Networking concept. Copy space for text.

Quando flerte vira networking e currículo vira swipe

Tenho reparado numa coisa meio curiosa (e nada aleatória): ninguém parece mais usar as plataformas para o que elas foram criadas. O Hinge virou espaço de networking disfarçado, o LinkedIn virou palco de paranoia anti-IA e o mercado de trabalho virou um buraco negro elegante onde currículos entram e respostas não saem.

Não é exatamente rebeldia. É adaptação.

Um dado recente resume bem o clima: 1 em cada 3 usuários de apps de namoro já deu match pensando em carreira, seja pra conhecer alguém da área, pedir indicação ou chegar mais perto de uma empresa dos sonhos. Parece estranho até lembrar que o caminho tradicional simplesmente parou de funcionar. Currículos são escritos por IA, lidos por IA, filtrados por IA. O contato humano virou exceção, não regra.

O resultado é esse deslocamento silencioso: se ninguém me vê no LinkedIn, talvez me veja no Hinge. Se ninguém responde meu e-mail, talvez responda meu “vamos tomar um café?”. O flerte vira ferramenta. O date vira coffee chat. Não porque seja romântico, mas porque é o que resta.

Ao mesmo tempo, os próprios apps de namoro perderam completamente o status de lugar sério para querer algo sério. Existe quase um constrangimento coletivo em admitir que se está ali buscando amor. O desejo virou algo que precisa ser disfarçado com ironia, sarcasmo e uma certa pose de “tanto faz”. Levar a sério virou sinônimo de ser cringe.

No LinkedIn, a coisa degringola por outro caminho. O feed está cheio de textos corretos demais, bem escritos demais, parecidos demais, e a reação não é admiração, é desconfiança. Em dash? Emoji? Estrutura perfeita? “Foi IA.” De repente, todo mundo virou detetive de autenticidade, tentando identificar sinais de humanidade como quem procura falhas numa falsificação.

O que une esses mundos não é a tecnologia em si, mas a fadiga de performance. A sensação de que é preciso aparecer o tempo todo, sem parecer interessado demais. Querer sem admitir que quer. Escrever sem soar artificial. Ser humano num sistema que recompensa escala, não intenção.

Talvez por isso tudo esteja se misturando. Dating vira trabalho. Trabalho vira teatro. Teatro vira texto genérico. E, no meio disso, a gente aprende a desejar em voz baixa, com piada pronta, com distanciamento estratégico. Não porque não se importe, mas porque se importar demais custa caro.

Não acho que isso seja cinismo. Acho que é autopreservação. Quando os sistemas prometem conexão, mas entregam silêncio, fingir que não estava tentando vira uma forma de seguir em frente.

Talvez o gesto mais radical hoje não seja otimizar perfil, escrever prompt melhor ou “hackear o algoritmo”.
Talvez seja algo bem menos performático: admitir que ainda queremos coisas reais, mesmo buscando por elas em lugares cada vez mais quebrados.E sim, isso pode soar meio estranho.
Mas talvez seja exatamente aí que ainda exista alguma verdade.

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