Tenho falado bastante disso na terapia. E talvez seja um daqueles temas que aparecem primeiro como incômodo, antes de fazer sentido.
Ultimamente, tenho sentido uma espécie de impaciência com as pessoas, mas não a impaciência óbvia, não é irritação nem falta de interesse. É mais sutil. É uma preguiça de falar, de explicar, de dividir. Como se colocar em palavras exigisse uma energia que eu simplesmente não estou mais tão disposta a gastar.
Sempre fui alguém que escuta, mas também alguém que compartilha. E agora percebo um pequeno deslocamento: continuo ouvindo, talvez até melhor do que antes, mas com menos vontade de me colocar. Menos exposição, menos narrativa, menos esforço. Isso, confesso, me assustou um pouco, porque, num primeiro momento, parece isolamento, parece que estou me fechando, mas, aos poucos, uma outra leitura começou a aparecer: talvez não seja afastamento, talvez seja seleção.
Tenho estado mais caseira, mais confortável em relações que dispensam explicação, aquelas em que o contexto já é compartilhado, em que a fase da vida é parecida, em que existe um entendimento quase automático. E isso me fez pensar que talvez seja parte da maturidade perceber que menos é mais, inclusive nas relações. Que amizade de verdade não precisa de manutenção constante, nem de presença performática, nem de frequência cronometrada. Ela simplesmente existe, e fica.
Mas tem outro lado, que ainda me atravessa. Uma angústia meio silenciosa. Às vezes penso em como serão as minhas amizades quando todas estiverem vivendo o mesmo momento que eu já estou vivendo agora — quando todas tiverem filhos, quando o tempo ficar escasso para todo mundo. E, de alguma forma, me antecipo à falta, porque eu já sinto falta. Mesmo entendendo, mesmo sabendo que é normal, mesmo lembrando que eu mesma fui uma das primeiras a entrar numa nova fase, e que, possivelmente, elas também sentiram a minha ausência, ainda que eu tenha tentado estar presente.
É curioso como a gente consegue racionalizar tudo e ainda assim sentir. Talvez porque amizade também seja isso: um ajuste constante entre presença e ausência, entre o que a gente consegue dar e o que gostaria de conseguir.
Ao mesmo tempo, existe uma certeza muito clara em mim. Eu me conecto profundamente com as minhas amigas, estive e estou lá pra elas, e sinto, com bastante tranquilidade, que elas também estarão lá pra mim. Existe uma intenção real, um cuidado, uma escolha. Eu dedico tempo. Eu sei o quanto elas são parte relevante da minha vida, e isso não se perde, só se transforma.
E talvez uma das coisas mais bonitas dessa fase seja perceber que ainda tem gente pra chegar. Por exemplo, no meu caso, as famosas mom friends — aquelas que você conhece quase por acaso, num parque, na escola, num playdate — e que, de repente, entendem exatamente o momento que você está vivendo. Como se a vida fosse abrindo novos círculos, sem necessariamente fechar os antigos.
O fato é que morei oito anos fora, e essa talvez tenha sido a maior prova de que o que é de verdade encontra um jeito de ficar. Algumas relações se perderam naturalmente. Outras, curiosamente, se intensificaram, não porque eu estava presente, mas porque, quando estava, era de verdade, era suficiente. Cheguei a ver mais certas pessoas morando em outro país do que vivendo a duas quadras de distância, o que diz muito: proximidade não é geografia, é qualidade de presença.
E talvez seja exatamente isso que esteja mudando agora. Uma menor tolerância ao superficial, uma menor disposição para relações que exigem esforço demais e entregam de menos, uma vontade maior de estar onde existe verdade, mesmo que isso signifique estar em menos lugares, com menos pessoas. E também uma tentativa, ainda em construção, de aceitar que as relações mudam de ritmo sem necessariamente perder profundidade.
Então, me convenço que não é isolamento e sim refinamento. Mais uma daquelas fases silenciosas de ajuste interno, em que a gente recalibra o que quer, o que aguenta, e o que já não faz mais sentido sustentar.
E no meio de tudo isso, uma constatação simples, mas reconfortante: quando é de verdade, não muda.