Tem um artigo do Gavin Francis publicado no Guardian em fevereiro que ficou na minha cabeça. Ele é clínico geral há trinta anos no NHS, escreveu um livro chamado The Unfragile Mind, e a tese é desconfortável: a gente pode estar fabricando uma epidemia de doença mental ao confundir sofrimento humano com patologia clínica.
Minha primeira reação foi defensiva. Porque eu, como provavelmente metade das pessoas que leem isso, coleciono diagnósticos como quem coleciona repertório. Ansiedade, traços disso, espectro daquilo. Tudo nomeado, tudo com sigla em inglês para conferir legitimidade. E tem um alívio genuíno em receber esses nomes, especialmente para uma geração que cresceu sendo chamada de exagerada, intensa e dramática. O diagnóstico, durante muito tempo, foi a credencial que validava o que a gente já sabia: que algo doía.
Mas Francis aponta uma coisa que eu não tinha pensado direito. Em 2019, dois terços dos jovens britânicos disseram acreditar ter algum transtorno mental. DOIS TERÇOS. Isso ou é uma pandemia silenciosa, ou é problema de medida, a gente alargou tanto o critério do que conta como doença que praticamente todo mundo se encaixa em alguma categoria. E as sucessivas expansões do DSM e do CID não foram descobertas em laboratório, foram decididas em sala de reunião por um grupo de médicos ocidentais.
Aí está o ponto que incomoda, no bom sentido. Francis não nega o sofrimento — é médico, sabe que dor mental mata. O que ele questiona é a moldura, e a moldura importa, porque os rótulos acabam moldando a experiência. Ele usa uma expressão que vou roubar: rótulos médicos são feitiços poderosos, que tanto curam quanto amaldiçoam.
Pensei nas vezes em que saí de uma consulta de quinze minutos com uma receita e uma sigla, e nas vezes em que saí de uma terapia de cinquenta minutos com mais perguntas do que cheguei. Não é difícil adivinhar qual das duas me ajudou mais a longo prazo, mas a primeira é infinitamente mais escalável e é a que o sistema, público ou privado, está montado para entregar.
Shekhar Saxena, ex-diretor de saúde mental da OMS, disse que preferiria receber um diagnóstico de esquizofrenia na Etiópia ou no Sri Lanka do que no Ocidente, porque nesses contextos há mais chance de manter sentido na vida, vínculo com comunidade, leitura espiritual do que está acontecendo. E olhe bem, não é romantização de pobreza, é observação técnica sobre prognóstico. A moldura clínica ocidental, com toda sua infraestrutura, produz piores desfechos em alguns casos.
O que mais me marcou foi uma lista. Francis cita a psicanalista Clarissa Pinkola Estés, que reuniu palavras que suas pacientes usavam para descrever o próprio estado mental, em contraste com a linguagem do CID. Traduzo um trecho: seca, frágil, amordaçada, sem inspiração, sem alma, sem sentido, carregando vergonha, cronicamente fumegante, volátil, travada, comprimida, incapaz de seguir adiante. Entregando a vida criativa para outros, sofrendo por viver fora dos próprios ciclos.
Cada palavra ali descreve um estado real, reconhecível, e nenhuma delas é uma doença. Nenhuma vai virar código CID, mas é nesse vocabulário que a vida acontece, e é desse vocabulário que a gente foi se desabituando, em troca de um glossário clínico que parece mais sério, mais legítimo, mas que talvez seja mais pobre para descrever quem a gente é.
A pergunta que fico me fazendo é se a generalização desses termos clínicos, a facilidade com que dizemos “crise de ansiedade” para uma tarde difícil, “gatilho” para qualquer desconforto, não está nos roubando a capacidade de habitar o próprio sofrimento com palavras próprias, em vez de terceirizar a interpretação dele para uma planilha desenhada em Washington nos anos 1980.
A frase do Francis que mais me marcou: “para reverter a epidemia de doença mental, precisamos de menos classificação rígida, e de mais curiosidade, gentileza, humildade e esperança.”
Curiosidade soa pequeno até a gente perceber que é o oposto da consulta de quinze minutos com receita pronta. É o oposto de aceitar o primeiro rótulo que se oferece. É também o oposto da nossa própria relação preguiçosa com o vocabulário do sofrimento. A gente quer um nome rápido para a coisa, um remédio que sirva, um TikTok que explique.
Talvez esse seja exatamente o sintoma que nenhum manual diagnostica.
* Ilustração: Anais Mims/Guardian Design
Uma resposta
O livro “Estranhos a nós mesmos” da Rachel Aviv aborda esse tema trazendo exemplos reais de pessoas que foram erroneamente diagnosticadas. Caso ainda não tenha lido, fica a indicação. Acredito que você vá gostar. Adorei o artigo 🙂