Por Lidiane Queiroz de Oliveira
Foi durante um relacionamento, alguns anos atrás, com uma pessoa que roncava muito alto que eu fiz algumas descobertas surpreendentes.
Primeiro: Pesquisas mostram que o ronco pode ser um fator de risco para o divórcio que só fica atrás de infidelidade e falta de dinheiro.
Segundo: um ronco intenso pode atingir entre 80 e 90 decibéis, volume comparável ao de um aspirador de pó.
Na época, tentei de tudo. Adesivo nasal para ele; tampões de ouvido para mim; fazer um som que, segundo um documentário, é o que fazem em prisões quando os companheiros de cela roncam (risos). Em noites piores, migrava para o sofá. O problema é que a falta de sono não termina quando o despertador toca. Eu acordava cansada e sem paciência. Ele não entendia a gravidade da situação (mesmo eu gravando o ronco para mostrar pra ele).
Dormir juntos foi transformado em símbolo de intimidade. Casais felizes dividem a mesma cama. Casais em crise dormem separados. Mas, e se essa lógica estiver invertida?
Lembrei dessa história (sem nenhuma saudade) ao ler uma reportagem da Bloomberg sobre uma tendência que vem ganhando força: cada vez mais casais estão optando por quartos separados para priorizar o sono e, por consequência, ter mais felicidade no relacionamento. O movimento já está influenciando arquitetos e designers, especialmente no mercado de luxo, onde cresce a demanda por casas com suítes independentes, alas separadas e espaços pensados para o que os americanos apelidaram de sleep divorce — o “divórcio do sono”.
E não é apenas por causa do ronco. Arquitetos relatam pedidos motivados por horários incompatíveis, sintomas da menopausa, preferências diferentes de temperatura, jet lag frequente e até pela obsessão contemporânea em monitorar a qualidade do sono.
A matéria aponta outro fator curioso: a popularização de dispositivos como Oura Ring, Apple Watch e outros rastreadores de saúde. Ao transformar o sono em métrica, esses aparelhos fizeram muita gente perceber o quanto estava dormindo mal ao lado do parceiro. Se antes acordar cansado parecia normal, agora existe um gráfico mostrando exatamente quantas vezes você foi interrompido durante a noite.
O resultado é uma mudança de mentalidade. Para um número crescente de casais, dormir em quartos separados deixou de ser sinal de distanciamento emocional e passou a ser uma ferramenta de convivência. A ideia não é passar menos tempo juntos. É acordar descansado o suficiente para querer passar mais.
E talvez exista uma ironia aí: depois de décadas tratando o quarto compartilhado como prova de amor, alguns casais estão descobrindo que a melhor forma de preservar a relação pode ser fechar a porta do próprio quarto na hora de dormir.
Você já pensou em dormir em um quarto separado do seu parceiro ou parceira?
* Ilustração: Fromm Studio