De ave menosprezada à ícone da Gen-Z
Por Lidiane Queiroz de Oliveira
O Rio de Janeiro é lotado de pombos. Me lembro deles fazerem parte de absolutamente todos os momentos ao ar livre (e no Rio, são muitos!). Em todas essas ocasiões a dinâmica era sempre a mesma: tentar expulsá-los com mãos abanando e gritos de ´saaai pombo!´, porque aprendemos desde cedo que eles carregam doenças, enquanto eles insistiam em voltar. Coitados, claramente desprezados.
Quando recebia visitas de fora, eu gostava de contar uma história: Pereira Passos (prefeito de 1902 a 1906), na tentativa de transformar o Rio em Paris, teria trazido os pombos para a cidade. Verdade ou não, pelo menos essa parte do projeto deu muito certo — além da construção do Theatro Municipal, claro, que é bem mais deslumbrante do que a Ópera de Paris.
Foi, então, com um certo choque, que me deparei com uma matéria contando que os pombos se transformaram em uma espécie de ícone da Gen-Z: vítimas incompreendidas do capitalismo e símbolos da revolução queer.
Infelizmente, para quem ainda odeia pombos, hoje eles estão tanto nas redes sociais quanto nas ruas de qualquer cidade. Há alguns meses, no podcast Las Culturistas, a atriz Sarah Paulson os defendeu com entusiasmo, listando motivos como o fato de “formarem pares para a vida toda”, antes de declarar: “o ódio aos pombos precisa acabar”.
Como muitos da Geração Z, uma parte crescente do público está reavaliando sua relação com essas aves. A rejeição, antes automática, passa a ser vista como algo aprendido, desproporcional e pouco questionado. Como diz Arshil Syed, “o problema é basicamente má reputação e o fato de serem muito abundantes”.
Mas há muito mais do que isso: pombos são capazes de jogar ping-pong, fazer cálculos básicos, identificar células cancerígenas e diferenciar arte impressionista e cubista! Também podem ser afetuosos e interagir com humanos. Até seu excremento, tão rejeitado nas cidades, pode funcionar como fertilizante eficiente.
A relação entre humanos e pombos é antiga. Eles foram domesticados há cerca de 10 mil anos. Civilizações como egípcios, romanos, persas e mongóis usaram pombos como mensageiros. Até a Segunda Guerra Mundial, ainda eram usados em comunicação militar, e 32 deles receberam a Dickin Medal por serviços prestados em guerra.
Na cultura popular, já foram símbolos de amor, liberdade e saudade, especialmente no cinema indiano. Mas, a partir do século XX, sua imagem começou a mudar. Um artigo do New York Times nos anos 1960, posteriormente contestado, associou pombos a mortes humanas e ajudou a consolidar uma percepção negativa que alimentou toda uma indústria de controle de pragas.
Como resume um dos entrevistados do texto, talvez o que esteja em jogo não seja o pombo em si, mas o que projetamos sobre ele: abundância demais, utilidade de menos, e uma tendência constante de descartar aquilo que não parece mais útil.
Não está convencido de que os pombos merecem mais respeito? Meu algoritmo está com hiperfoco desde que comecei a escrever esse texto e me mostrou mais 7 razões para amarmos essas aves.
- Eles podem ter sido a primeira ave domesticada pela humanidade. Há representações na arte que remontam a cerca de 4500 a.C., no território que hoje corresponde ao Iraque.
- Eles sempre sabem como voltar para casa. Os pombos conseguem encontrar o caminho de volta ao ninho a até 2.092 km de distância, mesmo quando são transportados em completo isolamento.
- São heróis de guerra pouco lembrados. Durante a Primeira Guerra Mundial, um pombo chamado Cher Ami conseguiu entregar uma mensagem mesmo depois de ser atingido por disparos. Ele foi baleado no peito, perdeu um dos olhos e teve a perna gravemente ferida. Ainda assim, voou cerca de 40 quilômetros em aproximadamente 25 minutos para levar o recado até o destino.
- Pombos já ajudaram a salvar muitas pessoas. Equipes de resgate já treinaram pombos para localizar pessoas à deriva no mar. Sua capacidade de voo, inteligência e visão sensível à luz ultravioleta, ajustada para perceber contrastes na água, os torna excelentes localizadores.
- Pombos produzem uma espécie de “leite”, chamado leite do papo (crop milk). É uma substância nutritiva produzida tanto por machos quanto por fêmeas, que serve para alimentar os filhotes.
- Os pombos conseguem fazer algumas acrobacias aéreas, incluindo “backflips”. Ainda não se sabe exatamente por que fazem isso, talvez seja só porque tenham muito street style (literalmente).
- Por fim: seja gentil com os pombos, eles se lembram. Estudos mostram que pombos conseguem reconhecer rostos humanos e guardar memória de quem os tratou bem — e também de quem os tratou mal.
E aí, na próxima vez que um pombo se aproximar, você vai gritar ´saaai, pombo!´ ou tentar fazer um carinho?