Não de tudo, mas daquilo que te prende mais do que solta
Por Isabella von Haydin
Há um tempo me dei conta de que parei de ler totalmente porque comecei duas leituras que não curti muito. Já ouviram que a vida é muito curta para se forçar a ler o que não gostamos? Pois bem, concordo, mas minha natureza teimosa me força a terminar quase todos os livros que eu começo. Precisa de muito para eu largar um livro, mas o que acontece é o seguinte: eu vou deixando de lado até o dia que eu paro e penso “caramba, parei de ler”.
Eu acho que o mesmo vale para várias coisas que nos forçamos a fazer ou vemos como 8 ou 80. Tipo ir pra academia todo dia: quando você falta um, já era e você começa a faltar todos. Ou comer mais saudável, talvez novos hábitos em geral. Acho que isso vale para o novo ou para o antigo que já não funciona mais.
Um dos nossos posts mais polêmicos tem o seguinte como primeira tela: tem gente que lê 600 livros por ano. Para entender como isso é possível, a jornalista Kelsey Rexroat investigou o perfil dos super-leitores (gente que lê mais de 100 títulos em 365 dias). Algo que eles têm em comum: abandonam obras “chatas”.
Em vez de desistir de ler (que eu fiz sem prestar atenção), eu deveria ter desistido daqueles livros. Não eram leituras à trabalho, então por que me forçar? Será que a questão não é almejar demais e esquecer do processo que acontece, quer queiramos ou não?
Eu aprendi que comigo a dificuldade é olhar pro topo da escada. Num dia bom, eu olho para cima e faço mil planos mirabolantes para subir correndo. O problema é que os dias ruins sempre chegam e a minha mente entra no modo de “são muitos degraus, não vamos conseguir, melhor nem tentar.”
Eu via que, mesmo quando subia um pouquinho, eu nem conseguia celebrar porque enquanto eu não estivesse lá em cima, nada seria o suficiente. Mas a gente dificilmente “chega lá” porque sempre tem algo mais além e além e além. Tenho tentado trabalhar com a minha psicóloga para manter a vista mais reta, nem tão pra cima, nem tão pra baixo. Tenho tentado focar nos próximos degraus, menos assustadores, mas no caminho que quero chegar.
Parte disso é também ter a sabedoria de abrir mão de algumas coisas, esquecer alguns livros e algumas metas que parecem muito distantes. E se a gente não colocar uma meta e aí deixaremos a meta aberta e quando a gente atingir a meta a gente faz o quê? Vai lá e dobra a meta. Quem pegou, pegou.
Para termos um pouco de paz, desistir pode ser algo rotineiro. Não de tudo, mas daquilo que prende mais do que solta. Eu sei que está bem metafórico, mas segura minha mão: sabe aquela autocobrança que aparece em tudo que fazemos? Redirecionar essa energia, as expectativas, os planos grandes demais, deixa tudo mais leve. Tenho percebido que parte da minha obsessão em encontrar novos hobbies vem, na verdade, do medo ainda maior de falhar naquilo que eu realmente quero fazer.
E esse medo é tão grande que às vezes nem me permito pensar no que realmente quero. Se a gente não sabe, nem dá pra tentar, né? Então, embora esse texto seja sobre desistir, também é sobre enxergar o que está bem na nossa frente, atrapalhando a visão do que desejamos de verdade. Disso, sim, precisamos desistir.
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