Tem uma frase do sociólogo Zygmunt Bauman que eu não consigo tirar da cabeça desde que vi na apresentação Liquid Adulthood, da agência THE PEOPLE. Ele escreveu isso lá em 1999, décadas antes de qualquer app de namoro ou LinkedIn existir, e mesmo assim parece que foi escrito pra descrever exatamente o que a gente vive hoje: “numa vida moderna líquida não há vínculos permanentes, e os que assumimos por um tempo precisam ser amarrados frouxamente, para que possam ser desamarrados de novo”.
A apresentação usa essa ideia de “modernidade líquida” como base pra explicar cinco áreas em que a vida adulta perdeu o chão: identidade, dinheiro/moradia, trabalho, relacionamentos e futuro. Fui atrás de entender melhor de onde vem essa teoria, porque ela ficou tão popular pra falar de gente mais jovem, e o que dá pra acrescentar (ou até questionar) em cada uma dessas frentes.
Sólido virou líquido, e ninguém avisou
Bauman divide a modernidade em duas fases. A primeira, “sólida”, é a era industrial que a gente conhece de filme antigo: fábrica, emprego pra vida toda, papel social bem definido por classe, gênero, religião. Um mundo duro, muitas vezes injusto, mas com uma vantagem, dava pra planejar a vida inteira dentro dele. A segunda fase é a nossa, a “líquida”: as instituições que davam esses pontos fixos foram se dissolvendo antes que qualquer coisa igualmente sólida aparecesse no lugar.
A comparação com líquido faz todo sentido se você parar pra pensar. Sólido mantém a forma. Líquido assume a forma de qualquer recipiente e muda de forma na primeira pressão que sofre. Antigamente, quando alguém perdia uma posição social, geralmente existia outra posição sólida esperando, uma nova classe, uma nova comunidade, pra essa pessoa se encaixar de novo. Hoje é tipo um jogo de cadeiras eterno, em que ninguém nunca acha um lugar fixo pra sentar.
E o efeito mais forte disso, segundo Bauman, é que tudo virou problema individual. Desemprego, instabilidade de moradia, solidão, coisas que antes eram vistas como falha do sistema, agora são tratadas como falha pessoal, algo que cada um tem que resolver sozinho, na marra. Ele resume isso numa frase que virou quase clichê na sociologia: as pessoas precisam achar “soluções biográficas para contradições sistêmicas”. E o pior é que não é escolha, como ele mesmo diz, “a opção de escapar da individualização não está na agenda”. Ninguém decidiu viver assim; simplesmente não sobrou outra opção.
Tem ainda um segundo ponto do Bauman que ajuda a entender a parte de identidade: a gente parou de nascer dentro de um papel pronto e passou a ter que se construir o tempo todo, de novo e de novo. E, nesse processo, consumo virou meio que o substituto do trabalho ou da comunidade como forma de pertencer a algo. Grupo estável virou “enxame”, juntando um monte de gente por um momento, sem hierarquia fixa, só numa “direção momentânea de voo”, como ele chama, sem nenhum pertencimento que dure.
Tem uma segunda teoria que ajuda a entender isso
Achei interessante que existe também uma explicação vinda da psicologia, que complementa bem o que o Bauman fala. Em 2000, o psicólogo Jeffrey Arnett criou o termo emerging adulthood, a “idade adulta emergente”, pra descrever um estágio de vida novo, que fica entre a adolescência e a vida adulta de fato, típico de países mais industrializados, indo do fim da adolescência até uns 29 anos. Casamento e filhos, que antes aconteciam logo no início da vida adulta, foram empurrados pra perto dos 30, e esse período passou a ser marcado por muita experimentação — de identidade, de relacionamento, de carreira.
As duas teorias conversam bem entre si: uma explica por que a transição pra vida adulta ficou mais longa; a outra explica por que ela parou de ter um ponto de chegada claro. Junte as duas e faz mais sentido por que perguntas simples como “quem eu sou”, “onde eu moro”, “o que eu faço da vida” pararam de ter resposta padrão por idade.
Identidade: de coisa herdada a projeto pessoal
Hoje cerca de 24% da população mundial não tem religião, contra 0,2% em 1900, um número que mostra bem o esvaziamento das instituições que costumavam entregar identidade pronta. Só que o interessante é olhar o que aparece no lugar vazio. Rola um movimento meio contraditório: de um lado, identidade fica mais fluida, mais dependente de marca e rede social; de outro, uma parte da galera mais jovem está indo atrás justamente do oposto, de estrutura mais rígida, o catolicismo, por exemplo, está crescendo entre a Geração Z no Reino Unido. Faz sentido ler isso como reação direta a essa individualização forçada: se ninguém mais entrega identidade pronta, tem gente escolhendo se filiar a quem promete exatamente isso.
Base material: consumo pequeno, casa própria distante
Os produtos do dia a dia ficaram, em termos relativos, mais baratos. Moradia, o bem que historicamente marcava “virar adulto” ficou muito mais cara. Em várias cidades do mundo, o aluguel já come mais de 50% do salário de quem mora lá. Não é à toa que pequenos prazeres simbólicos (um café mais caro, um batom, um tênis) acabaram substituindo os marcos de consumo grandes de antigamente, tipo entrada de apartamento. Some a isso a chamada “grande transferência de riqueza”: pela primeira vez em mais de cem anos, o futuro financeiro de um jovem depende mais do que ele vai herdar do que do que ele vai ganhar trabalhando. E isso divide a própria geração por dentro, entre quem tem patrimônio de família pra contar e quem não tem.
Trabalho: de carreira a portfólio de bicos
O emprego pra vida toda deu lugar a uma bagunça fragmentada: o tempo médio que a Geração Z fica num emprego é de 1,1 ano, e a estimativa é que a pessoa jovem média vá ter mais de dez empregos ao longo da vida. E ainda tem o risco, levantado pelo próprio CEO da Anthropic, Dario Amodei, de que a IA acabe com boa parte das vagas de entrada em carreiras de escritório nos próximos anos. A resposta que aparece na pesquisa é a tal “carreira portfólio”: a maioria da Geração Z já faz freelance ou pretende fazer, mas, e isso é o ponto que eu acho mais revelador, a maioria também diz que preferia um vínculo mais estável do que o que existe hoje. Ou seja: a fragmentação não é liberdade escolhida, é precariedade que dá pra tolerar.
Relacionamento: do bairro pro algoritmo
Antes da internet, relacionamento nascia de proximidade física: vizinho, colega de escola, gente do bairro. Isso tornava mais difícil sumir de alguém que você ia cruzar de novo na rua. Essa lógica virou de cabeça pra baixo: antes de 1995, nenhum casal nos EUA tinha se conhecido online; em 2017, já eram 39%, tornando os aplicativos o jeito mais comum de conhecer o parceiro, à frente de amigos, trabalho e família. A “situationship” é sintoma disso, não a causa. E tem uma pesquisa sobre solidão que traz um contraponto importante à ideia de que estamos todos hiperconectados: cerca de três em cada dez jovens entre 16 e 29 anos dizem sentir solidão com frequência. O motivo não é falta de contato, é que rede social entrega volume de curtidas e comentários, mas pouca profundidade emocional. Alguém chamou isso de “a ilusão da conexão”, e acho que resume bem: os “enxames” digitais dão companhia em número, não o tipo de vínculo denso que uma comunidade de verdade oferecia.
Futuro: quem decide por quem
A expectativa de vida global pulou de 32 anos em 1900 pra 73 hoje, o que, olhando de fora, é uma vitória e tanto da humanidade. Só que isso também desacelerou a transferência de poder entre gerações, um fenômeno que costumam chamar de “gerontocracia”. Vale trazer um contraponto que achei na pesquisa mais recente sobre o tema: parte dos cientistas políticos discorda desse diagnóstico, dizendo que o problema real é desigualdade de classe, o sistema recompensa mais quem tem patrimônio do que quem trabalha, seja qual for a idade, e que eleitor mais velho nem sempre vota contra o interesse dos jovens [13]. Isso não invalida o sentimento de exclusão que muito jovem sente diante de decisões sobre clima, custo de vida, geopolítica, mas sugere que a saída está mais em redistribuir riqueza e poder por critério econômico do que simplesmente por idade.
O que eu acho mais valioso nesse conceito de vida adulta líquida não é o alarde de crise, é que ele dá nome pra uma sensação que antes ficava só no ar. A vida adulta não sumiu, ela mudou de estado físico. A gente continua querendo identidade, estabilidade, um trabalho que faça sentido, um vínculo de verdade, um lugar no futuro, esse desejo não diminuiu nadinha. O que mudou foi a estrutura disponível pra realizar isso, e o tamanho das coisas que a gente consegue realizar: um café em vez de uma casa, um freela em vez de uma carreira. Entender essas cinco dimensões, e como uma alimenta a outra, ajuda a explicar por que ser adulto hoje dá tanto trabalho de construir, e por que o chão embaixo dos pés continua tão pouco firme.