Pra se aprofundar

A nova cultura do sexo seguro

Durante muito tempo, a saúde sexual foi organizada em torno de uma pedagogia do medo. Camisinha, teste de DST e pílula do dia seguinte eram menos ferramentas de cuidado e mais lembretes de que algo tinha dado errado. A geração Z está desmontando esse modelo. Para ela, sexo não é um território excepcional, é apenas mais uma camada da gestão do corpo, ao lado de sono, alimentação, humor, pele e performance emocional. A prevenção deixa de ser punição e passa a ser manutenção.

Isso muda o lugar simbólico desses objetos. Quando a pílula do dia seguinte vira “girl breakfast” ou quando o PrEP (medicamento preventivo contra o HIV comumente usado por homens gays) aparece no perfil do Grindr, o que está em jogo não é banalização, mas normalização. A saúde sexual entra na lógica da vida cotidiana. Como passar filtro solar, tomar probiótico ou marcar terapia. O corpo deixa de ser algo que só reage ao dano e passa a ser algo que se antecipa a ele.

Essa virada só se tornou possível porque a geração Z cresceu dentro de uma cultura de monitoramento contínuo do ‘eu’. Apps de sono, rastreadores de ciclo, medidores de humor, testes de Covid, exames de DNA, biohacking, o corpo virou uma interface. Nesse contexto, testar uma DST antes de transar não é paranoia, é coerência. É o mesmo raciocínio que fez as pessoas levarem autotestes para jantares durante a pandemia: o risco não desaparece, mas pode ser administrado.

O mercado percebeu isso mais rápido do que as instituições. Enquanto boa parte da medicina ainda opera numa lógica moralizante — consultas constrangedoras, burocracia, julgamento implícito —, startups entenderam que o maior obstáculo à prevenção não é ignorância, é fricção social. 

Plataformas como Testie não estão apenas vendendo exames; estão removendo o peso simbólico do processo. E marcas como Julie e Sense fazem algo ainda mais radical: deslocam camisinha e contracepção do campo do medo para o campo do desejo. Design, linguagem e humor não são adornos, são tecnologia comportamental.

Isso não significa que tudo esteja resolvido. O paradoxo é claro: apesar da queda nas infecções por HIV entre jovens, o uso de camisinha diminui e outras DSTs aumentam. A estética do cuidado avançou mais rápido que sua prática. Mas talvez isso revele algo mais profundo sobre essa geração. A Gen Z não rejeita a prevenção, ela rejeita a ideia de que o sexo deva ser vivido sob culpa. Ao transformar proteção em algo escolhível, bonito e integrado ao prazer, ela está tentando resolver uma equação difícil: como cuidar do corpo sem transformar o desejo em ameaça.

Se até a intimidade agora é parte dessa lógica de cuidado, talvez o que esteja nascendo não seja uma geração mais irresponsável, mas uma que se recusa a confundir vergonha com proteção.

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