Os anos 90 voltaram às vitrines, mas o que a Gen Z quer de volta é outra coisa.
Ninguém chamava os anos 90 de Y2K. Quem lembra disso é o autor da newsletter A.Musing, que viveu a década: na época, a sigla era só o nome do bug do milênio, aquele medo coletivo de que os computadores fossem enlouquecer à meia-noite de 1999 e derrubar bancos, aviões e a conta de luz. Y2K era ameaça. Só depois virou estética.
E ela voltou com força. Calça cargo, slip dress, o minimalismo de Carolyn Bessette-Kennedy salvo em mil pastas do Pinterest. Kate Moss de novo na passarela. Oasis lotando estádio, com “Wonderwall” virando trilha da seleção inglesa na Copa deste ano. Em Londres, a Tate Britain acaba de abrir “The 90s: Art and Fashion”, com curadoria de Edward Enninful, ex-editor da Vogue britânica: mais de cem imagens, esculturas e roupas que definiram a década.
Até aqui, nada de novo. A indústria sempre recicla o que o consumidor de 35 anos lembra com carinho. Foi assim com os anos 80 e Stranger Things. A diferença é quem está puxando a fila. Não é a geração que viveu os 90. É a que nasceu depois de 2000 e garimpa CD em brechó e câmera digital de 2003 no Enjoei. O escritor John Koenig inventou uma palavra para isso no seu Dictionary of Obscure Sorrows: anemoia, a saudade de um tempo que você não conheceu.
Então a pergunta fica mais interessante. Do que sente falta quem nunca esteve lá?
Com certeza não é dos anos 90 que a gente viveu aqui. Os que circulam no TikTok são britânicos e americanos: rave em galpão abandonado, grunge, Friends. Os nossos foram outra história. A década começou com o confisco da poupança, e em 1993 a inflação passou de 2.400% no ano. O preço do supermercado mudava entre a manhã e à tarde. Tivemos MTV Brasil, Castelo Rá-Tim-Bum e Mamonas, sim. Tivemos também a maquininha de remarcar etiqueta e armário estocado de comida.
Lá fora o roteiro também tinha furos. Heroin chic, tabloide destruindo vidas, uma indústria da moda quase toda branca. Numa reportagem da CNN sobre a exposição da Tate, assinada pela jornalista Sheena McKenzie, Enninful lembra que tentou colocar uma modelo negra na capa da sua primeira edição da i-D e ouviu não.
Então, do que é a saudade? A mesma reportagem ouviu gente que estava lá, e as respostas vão todas na mesma direção.
O psicólogo Clay Routledge, que pesquisa nostalgia, diz que quando pergunta aos jovens o que os atrai na década, a resposta raramente é a roupa. É a relação com a tecnologia. A internet existia, mas morava num computador só, na sala, fazendo aquele barulho de discagem. Não te seguia até o banheiro. Segundo ele, não é rejeição à tecnologia. É procura pela dose certa.
Enninful vai mais longe. Pra ele, os jovens enxergam os 90 como o último momento em que dava pra sair e fazer o que quisesse sem ser capturado. A palavra é essa. Não filmado, não postado, não marcado. Ele contou à CNN que saía da balada direto pro trabalho, com um borrifo de desodorante no caminho. Aos 18, era o diretor de moda mais jovem da história da i-D.
Tem uma série na exposição que resume isso melhor que qualquer tese. No começo da carreira, Juergen Teller fotografava na porta do estúdio as meninas que as agências mandavam para teste. Centenas delas, umas com a mãe do lado, outras fazendo pose de quem não liga, uma plantando bananeira pra chamar atenção. Ninguém sabia que estava virando arquivo. Hoje uma menina de 15 anos conhece o próprio melhor ângulo antes de sair de casa.
O fotógrafo e DJ Normski, outro nome da mostra, disse à reportagem que detesta a palavra “transparência”. Para ele, o underground acabou porque tudo ficou visível o tempo todo. Se a cena aparece no seu feed, já deixou de ser subterrânea. O conselho dele soa quase como manifesto: “seja sólido, seja opaco”. Opaco, guarda essa palavra.
O autor da A.Musing tem uma hipótese que ajuda a entender por que essa vontade foi parar justamente nos 90, e não nos 2000. Para ele, a nossa cabeça faz uma triagem. Os 90 foram a última década com cara própria e a última com mídia física de sobra, então tudo que é bom vai pra antes da virada do milênio. O que é ruim, como o 11 de setembro, a crise de 2008 e o feed infinito, vai pra depois. Os 90 viram uma gaveta onde a gente guarda só o que deu certo.
E a moda agradece. A jornalista Dana Thomas, também ouvida pela CNN, lembra que o luxo, correndo atrás do ritmo do fast fashion, ficou sem tempo para criar, e recicla o passado porque não consegue acompanhar. O look Carolyn Bessette é praticamente um uniforme. Fácil de usar, portanto fácil de vender.
Tempo, aliás, é a outra palavra que importa aqui. A artista Vinca Petersen morou em ocupações em Londres e, na mesma reportagem, faz uma conta simples: sem aluguel, você trabalha menos. Trabalhando menos, sobra tempo. E o tempo vira criação. Tenta explicar essa equação pra quem divide apartamento em Pinheiros.
Os livros da época já sabiam disso. Em 1992, Chris McCandless doou tudo, queimou o dinheiro que tinha e sumiu no Alasca, história que Jon Krakauer contou em Into the Wild. A fantasia máxima daquela década era desaparecer. Em Stay True, Hua Hsu lembra uma amizade na faculdade feita de zines, fitas e conversa até de madrugada, sem nenhum registro além da memória. Hoje, desaparecer virou luxo.
No fim, a saudade não é dos anos 90. É de duas coisas que eles tinham de sobra e a gente perdeu: tempo e opacidade. A calça cargo dá pra comprar. A opacidade, não.
E a ironia é que a gente expressa essa vontade de não ser visto postando um story sobre ela. Os anos 90 não estão voltando. O que volta é a vontade de um lugar onde ninguém estava olhando. E isso, por definição, não cabe num carrossel.