4eb8afd1-2487-4ce6-a5be-16b671310953

A tirania da excepcionalidade

Não é segredo para ninguém que vivemos tempos complicados. Crise na economia, crise ambiental, crise na política, crise nas redes sociais… parece que tudo está em crise! Mas quero falar sobre algo que afeta profundamente nosso dia a dia e que raramente discutimos: a pressão esmagadora de sermos excepcionais.

Pense nos seus bisavós por um momento. Eles provavelmente nasceram sabendo exatamente o que seriam na vida. O filho do ferreiro seria ferreiro, a filha do fazendeiro casaria com alguém da região e cuidaria da casa. Não havia muita escolha, é verdade, mas também não havia aquela angústia existencial de “o que eu vou fazer da minha vida?”.

Nós, por outro lado, crescemos ouvindo que podemos ser absolutamente qualquer coisa. Astronauta? Claro! CEO bilionário? Por que não? Influencer com milhões de seguidores? É só querer! O problema é que quando tudo é possível, ser apenas comum parece um enorme fracasso pessoal.

Essa é a ironia cruel da nossa época: nunca tivemos tanta liberdade teórica e, ao mesmo tempo, nunca nos sentimos tão pressionados a provar nosso valor. Somos a primeira geração que carrega nas costas o peso de ter que ser extraordinário.

“Se você se esforçar o suficiente, vai conseguir.” “É só ter determinação que você chega lá.” “Quem quer, faz acontecer.”

Essas frases de efeito ignoram uma verdade matemática simples: por definição, ser excepcional significa estar entre os poucos. Se todos os 8 bilhões de habitantes do planeta seguissem à risca todos os conselhos de sucesso, ainda assim apenas uma parcela minúscula chegaria ao topo.

Ainda assim, internalizamos a ideia de que todo mundo deveria “fazer a diferença”, “deixar um legado” ou “mudar o mundo”. Daí vem aquela sensação constante de que estamos ficando para trás, de que não somos bons o suficiente, de que deveríamos estar fazendo mais.

Antigamente, você só se comparava com as pessoas da sua rua ou, no máximo, da sua cidade. Hoje, basta abrir o Instagram para ser bombardeado com as conquistas extraordinárias de milhões de pessoas ao redor do mundo.

É claro que sabemos, racionalmente, que as redes sociais são uma versão editada da realidade. Mas emocionalmente? É impossível não sentir aquela pontada de inadequação quando vemos alguém da nossa idade viajando o mundo, dirigindo um carro de luxo ou morando numa mansão.

Essa comparação constante não apenas nos faz sentir mal, mas também fragmenta nossa capacidade de concentração. Pulamos de projeto em projeto, de hobby em hobby, de curso em curso, sempre em busca daquela coisa que vai finalmente nos fazer “chegar lá” – onde quer que seja esse “lá”.

Por que os homens estão tão perdidos?

Muito se fala sobre a “crise da masculinidade” hoje em dia. Vemos comunidades online de homens frustrados crescendo, taxas de suicídio masculino alarmantes e um desengajamento social cada vez maior.

O que poucos percebem é que isso é apenas um sintoma específico de um problema universal. Quando sua identidade é baseada principalmente no que você conquista (e não em quem você é), qualquer dificuldade vira uma crise existencial. Como os homens ainda são muito julgados pelo seu sucesso profissional e financeiro, eles sentem essa pressão de forma particularmente intensa.

Esse problema vai além do individual. Pense naquelas cidades que cresceram em torno de uma grande indústria que depois fechou as portas. O que vemos não é apenas desemprego, mas uma profunda crise de identidade coletiva.

Mesmo com programas de assistência financeira, essas comunidades continuam sofrendo porque perderam algo fundamental: o senso de propósito, o orgulho de contribuir para algo maior, o respeito social que vinha do trabalho bem feito.

Como escapar dessa armadilha?

Como podemos sair desse ciclo de pressão e inadequação? Não tenho respostas mágicas, mas acredito que precisamos urgentemente repensar o que valorizamos como sociedade:

1. Redescobrir o valor do comum Precisamos celebrar mais a vida comum bem vivida. A pessoa que cria bem seus filhos, que é um bom vizinho, que faz seu trabalho com dedicação – mesmo que nunca apareça no jornal ou tenha milhões na conta – merece tanto respeito quanto qualquer celebridade.

2. Encontrar valor em diferentes lugares Uma vida equilibrada precisa de várias fontes de satisfação. Relacionamentos profundos, participação na comunidade, hobbies sem pressão de monetização, pequenas conquistas diárias – tudo isso deveria “contar” tanto quanto um cargo impressionante ou uma conta bancária polpuda.

3. Reconhecer o papel da sorte Precisamos ser mais honestos sobre o quanto o sucesso depende de circunstâncias, oportunidades e privilégios. Isso não só fundamenta políticas mais justas, mas também alivia aquela autocrítica destrutiva de quem não chegou ao topo apesar de todo esforço.

Não estou dizendo para abandonarmos a ambição ou a busca por excelência. Mas uma sociedade onde quase todo mundo se sente constantemente inadequado é uma sociedade doente, por mais rica ou tecnologicamente avançada que seja.

Talvez a verdadeira revolução do nosso tempo não esteja em nenhuma tecnologia inovadora, mas em algo muito mais básico: criar comunidades onde pessoas comuns possam sentir que são boas o suficiente. Onde ser apenas humano – com todas as imperfeições e limitações que isso implica – seja motivo de celebração, não de vergonha.

E aí, já parou para pensar em quantas vezes se sentiu inadequado por não ser “extraordinário” o suficiente?

Direitos reservados Eat Your Nuts