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As viagens aéreas estão se tornando mais perigosas?

Respire fundo. Aperte o cinto. Sinta o estômago revirar enquanto a aeronave acelera pela pista. Para muitos de nós, esse momento desperta uma pergunta incômoda que tentamos mascarar: será que chegaremos vivos ao nosso destino?

Uma série de acidentes aéreos recentes no mundo trouxe essa questão novamente à tona, como um fantasma que se recusa a desaparecer. Mas será que estamos realmente diante de um cenário alarmante ou apenas vivenciando o poder amplificador das redes sociais sobre nossa percepção de risco?

Janeiro de 2025 se mostrou um mês particularmente cruel nos registros da aviação mundial.  Em Washington DC, o que deveria ser apenas mais um dia de voos rotineiros transformou-se em tragédia quando um helicóptero e um avião comercial se encontraram fatalmente sobre o rio Potomac, tirando 67 vidas. Como se o universo estivesse testando nossa fé, poucos dias depois, a costa gelada do Alasca virou cenário para mais dez mortes quando um avião de pequeno porte despencou sem sobreviventes.

Em Toronto, passageiros do voo da Delta Air Lines experimentaram o que muitos consideram o pior pesadelo: um avião capotando e sendo consumido pelas chamas após um pouso mal sucedido. Por um milagre da engenharia moderna ou pura sorte – você decide – ninguém perdeu a vida. E como se não bastasse, mais duas almas se foram em uma colisão aérea no Arizona.

Do lado de baixo do Equador, o Brasil parecia determinado a não ficar atrás nessa macabra contagem. Janeiro nos presenteou com uma cena digna de filme-catástrofe: um avião transformando a Avenida Marquês de São Vicente, em São Paulo, em zona de impacto, matando duas pessoas e deixando seis feridos que tiveram o azar de estar no lugar errado, na hora errada. Fevereiro mal começou e o empresário Fredy Tanos perdeu a vida quando seu avião de pequeno porte se espatifou em Prado, no sul da Bahia.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) confirma o que nossos noticiários já anunciavam: sete acidentes aéreos com vítimas fatais em apenas dois meses de 2025 no Brasil. Os números são frios, mas cada um deles representa uma história interrompida.

É hora de encarar os fatos com a frieza que eles merecem…

 Você já deve ter ouvido que voar é mais seguro que tomar banho. Ok, exagerei, mas dizem que é mais seguro que dirigir – e isso é verdade, dependendo de qual avião estamos falando. Para os gigantes dos céus, os jatos comerciais de grande porte, os números confirmam: você tem mais chance de ganhar na loteria do que de morrer em um acidente aéreo comercial.

Mas e aquele jatinho particular que a influencer tanto se gaba? Aí a história muda de figura. Aviões menores, como o que virou manchete no Alasca, carregam um risco por hora que faria você repensar aquela carona.

Ironicamente, os acidentes que mencionei nos EUA são apenas a ponta do iceberg – foram 10 acidentes aéreos fatais só em janeiro por lá. Mas aqui vem a reviravolta: esse número, longe de ser um sinal do apocalipse aéreo, representa um mínimo histórico para o mês de janeiro. Já no Brasil, a situação é mais preocupante: os 44 acidentes aéreos com vítimas fatais em 2024 representam o maior número desde 2016.

Para a aviação comercial de grande porte, o acidente de Washington é o que os estatísticos chamariam de “cisne negro” – aquele evento raro que desafia as probabilidades. Foi o primeiro acidente com múltiplas fatalidades nos EUA desde 2009, quando um turboélice decidiu desafiar as leis da física no estado de Nova York, levando 49 pessoas.

Os dados globais mostram que 2024 não foi exatamente um ano para se comemorar: 333 fatalidades em 16 desastres aéreos, um salto em relação a 2023, quando 115 pessoas perderam suas vidas em seis incidentes. Ainda assim, a última década continua sendo, por larga margem, a mais segura desde que os irmãos Wright decidiram que os humanos deveriam voar.

A tendência de longo prazo é clara como o céu em dia de verão: em 1959, havia 40 acidentes fatais por milhão de decolagens. Hoje, esse número despencou para aproximadamente 0,1 – uma redução de 99,75%. Algumas companhias aéreas, como EasyJet e Ryanair, possuem um histórico tão impecável que nunca registraram um acidente fatal. Com a possível exceção dos trens, voar continua sendo o jeito mais seguro de chegar ao seu destino – estatisticamente falando.

Mas me perguntei, será que devemos julgar a segurança dos céus apenas contando corpos? Existem outras métricas que merecem nossa atenção?

O espaço aéreo está cada vez mais congestionado – é como se tivéssemos transformado o céu em uma versão da Marginal Tietê em horário de pico. A proliferação de táxis aéreos privados e drones têm criado um cenário onde encontros indesejados se tornam mais frequentes. Nos EUA, pilotos relatam dezenas de quase-colisões e impactos menores com drones anualmente.

Por que então temos a impressão de que voar está se tornando uma roleta-russa? A resposta está na palma da sua mão – literalmente. Graças aos smartphones, câmeras de segurança e redes sociais, qualquer incidente envolvendo aeronaves é agora capturado em 4K e compartilhado mais rápido que a velocidade do som.

O resultado? Uma distorção massiva da realidade. Estamos expostos a mais desastres e em detalhes tão vívidos que nosso cérebro, ainda programado para os tempos das cavernas, interpreta essa sobrecarga de informação como um aumento real do perigo. Um incidente que há 20 anos seria uma nota de rodapé em um jornal local agora viraliza e é assistido milhões de vezes antes mesmo que os investigadores cheguem ao local do acidente.

Outro ponto de preocupação são as quase-colisões entre jatos de grande porte, particularmente durante decolagens e pousos. Embora esses incidentes tenham aumentado no início dos anos 2000 e 2010, os casos graves continuam sendo tão raros quanto um político honesto – menos de uma ocorrência a cada milhão de movimentos.

O controle de tráfego aéreo americano, já operando no limite com falta crônica de pessoal, pode enfrentar uma crise ainda mais séria após a última onda de cortes da administração Trump, que demitiu centenas de funcionários federais. Essa deficiência foi apontada como um possível fator no acidente de Washington – uma economia que pode ter custado dezenas de vidas.

E como se não bastassem os problemas criados por nós mesmos, a natureza também decidiu entrar na equação. O aumento da turbulência, potencializado pelas mudanças climáticas, já cobrou seu preço: uma morte foi registrada após um caso particularmente violento em um voo de Londres para Cingapura no ano passado. No entanto, até agora, não há evidências concretas de que esses eventos estejam se tornando mais frequentes ou letais.

Em nosso país tropical, os números são mais preocupantes. Em 2024, além dos 44 acidentes com vítimas fatais, o número total de mortes chegou a 152 – o maior desde que o Cenipa começou a série histórica em 2015. A tragédia da VoePass em Vinhedo (SP), que levou 62 vidas, inflou significativamente essas estatísticas.

Mas o que realmente chama atenção é que não são primariamente falhas mecânicas que estão derrubando nossos aviões. São pessoas. Segundo dados oficiais, dois terços dos acidentes têm origem humana: 33,33% causados por fatores psicológicos (percepção do risco, fadiga, estresse) e outros 33,33% relacionados ao desempenho técnico humano (indisciplina, erros de manutenção, falhas de julgamento e planejamento inadequado).

A aviação de pequeno porte lidera nosso triste ranking, respondendo por 24 dos 44 acidentes fatais em 2024. A aviação agrícola vem em segundo, com oito ocorrências. São Paulo, como em tantos outros rankings, lidera com 11 acidentes, seguido por Mato Grosso (7), Pará e Minas Gerais (5 cada).

Especialistas são unânimes: precisamos melhorar urgentemente nossa cultura de segurança de voo, com mais treinamento formal, melhores escolas de aviação e fiscalização mais rigorosa. Também faltam estudos detalhados sobre os perfis dos pilotos envolvidos nesses acidentes – informações que poderiam salvar vidas no futuro.

Então, quanto devemos nos preocupar quando o comandante anuncia “tripulação, preparar para decolagem”?

Se você estiver em um voo comercial regular, respire tranquilo. Apesar dos recentes incidentes de alto perfil, não há evidências de deterioração sistemática da segurança. Considerando o crescimento vertiginoso da aviação brasileira – um aumento de 5,75% na frota apenas em 2024 – o bom histórico de segurança dos voos comerciais regulares continua sendo digno de nota. 

Agora, se você estiver embarcando naquele monomotor para uma fazenda no interior ou aceitando uma carona no jatinho particular de um amigo… bom, digamos que talvez valha a pena considerar uma viagem de carro. Ou pelo menos verificar se o seu seguro de vida está em dia.

Por fim, lembre-se: a próxima vez que você sentir aquele frio na barriga durante a decolagem, não é o perigo real que você está sentindo. É apenas o eco ancestral de um cérebro que evoluiu para temer alturas, não para voar a 900 km/h a 10 mil metros do chão.

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