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Jejum de dopamina: o que isso quer dizer?

É preciso sentir nada, para sentir mais depois. Essa frase faz algum sentido pra você? Para muita gente ela tem feito cada vez mais e mais, e muitos têm aderido ao detox de dopamina. De primeira, ele parece ser algo simples de se fazer, afinal, ele soa como basicamente um jejum de tudo, mas vou te contar por que tal ato tem sido mal interpretado e, na maioria das vezes, feito de forma errônea.

Quando o assunto é ‘cortar dopamina’, o número de coisas a não fazer é potencialmente infinito – não comer, não ouvir música, não fazer exercícios, não fazer sexo. Nada de trabalho. Nada de falar mais do que o absolutamente necessário. Acontece que, ao pesquisar mais a respeito, descobri que a verdadeira intenção do psiquiatra californiano Dr. Cameron Sepah, criador da coisa toda, é na verdade contrária do que se tem entendido por aí, tendo muito pouco a ver com jejum ou dopamina. Como Sepah disse ao New York Times,a dopamina é apenas um mecanismo que explica como os vícios podem ser reforçados e dá um título atraente. O título não deve ser levado ao pé da letra“. Infelizmente, é aqui que começam os equívocos.

Sua verdadeira intenção está baseada na terapia cognitivo-comportamental e seu método tem a intenção de nos tornar menos dominados pelos estímulos prejudiciais à saúde – os textos, as notificações, toques – que acompanham a vida em uma sociedade moderna e centrada na tecnologia. Em vez de responder automaticamente a esses sinais indutores de recompensa, que nos proporcionam uma carga imediata, mas de curta duração, devemos permitir que nossos cérebros façam pausas e se reiniciem desse bombardeio potencialmente viciante. A ideia é que, ao nos permitirmos sentir solidão ou tédio, ou encontrar prazer em atividades mais simples e naturais, recuperamos o controle sobre nossas vidas e somos capazes de lidar com comportamentos compulsivos que possam estar interferindo na nossa felicidade. Interessante, né?

Acontece que, muitas pessoas interpretam erroneamente todo o conceito. Embora a dopamina aumente em resposta a recompensas ou atividades prazerosas, ela não diminui quando evitamos atividades super estimulantes, portanto, um “jejum” de dopamina não diminui de fato nossos níveis de dopamina. Ou seja, as pessoas estão vendo a dopamina como se fosse heroína ou cocaína e estão jejuando no sentido de dar a si mesmas uma “quebra de tolerância” para que os prazeres do que quer que estejam se privando – comida, sexo, contato humano – sejam mais intensos ou vívidos quando consumidos novamente, acreditando que os estoques de dopamina esgotados terão se reabastecido, e não é bem assim que funciona.

Cameron recomenda que iniciemos o jejum de uma forma que atrapalhe minimamente nosso estilo de vida. Por exemplo, praticar o jejum de dopamina de uma a quatro horas no final do dia, por um dia de fim de semana, um fim de semana por trimestre ou uma semana por ano. Tudo isso parece sensato, ainda mais se aderirmos a outras práticas, como a de atenção plena e boa higiene do sono, o que inclui a sugestão de não usar tela antes de dormir. No entanto, as pessoas estão adotando versões cada vez mais extremas e prejudiciais à saúde desse jejum, com base em conceitos errôneos sobre como a dopamina funciona em nossos cérebros. Elas não estão comendo, se exercitando, ouvindo música, socializando, falando mais do que o necessário.

Mas, nada disso está realmente diminuindo a dopamina. Evitar interagir com as pessoas, olhar para elas e se comunicar, nunca fez parte da ideia original de Sepah. A interação humana (a menos que seja de alguma forma compulsiva e destrutiva) está na categoria de atividades saudáveis que devem suplantar as não saudáveis, como navegar nas mídias sociais por horas, todos os dias. Em essência, os jejuadores de dopamina estão se privando de coisas saudáveis, sem motivo, com base em uma ciência falha e na má interpretação de um título atraente.

Acho a ideia do jejum de dopamina muito interessante, principalmente como uma ferramenta para nos ajudar a nos reconectar com nós mesmos e com os outros. Confesso que fiquei com vontade de testar, quem se junta a mim? 

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