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Ninguém sabe mais o que está acontecendo online

Esse é o último ‘pra se aprofundar‘ do ano e, como fiz uma reflexão mais pessoal na edição passada, nesta resolvi trazer um assunto relevante e atual! Convido você a refletir sobre como a internet, cada vez mais, assemelha-se a um “não lugar”, fugaz, quase como se estivesse evaporando. 

Compreender o que realmente está acontecendo online ficou mais difícil do que nunca. Antes considerado um espaço unificado, o mundo virtual vem se tornando cada vez mais fragmentado e desorientador. Ao clicar e rolar a tela, você é uma das mais de 5 bilhões de pessoas (cerca de 60% da população mundial) que contribuem para uma variedade insondável de informações em rede – quintilhões de bytes produzidos todos os dias.

Pois é, a cada minuto são postados 350 mil tweets, 66 mil fotos e vídeos no Instagram, 2.500 vídeos no YouTube (totalizando 183 horas) e 16 mil vídeos no TikTok. Alguns desses conteúdos se tornam virais, enquanto outros passam despercebidos – e muitos, provavelmente, são excluídos pelos próprios usuários com o tempo.

Essa crescente densidade de informações na internet dá origem ao que Jorge Grimberg denomina “mediocridade digital”. Na ânsia de participar de todas as conversas, quantas pessoas ou instituições não acabam reproduzindo mais do mesmo, soterrando qualquer coisa mais relevante que poderia estar sendo vista?

Além disso, há uma falta de compreensão sobre o que acontece nas diversas plataformas online, seja devido aos algoritmos de recomendação, por exemplo, o “para você” do TikTok, à ascensão de paywalls que limitam o acesso a sites, ao redesenho do Twitter, agora sob o comando de Elon Musk, ou à diminuição da relevância das notícias na maioria das redes sociais. De acordo com Ryan Broderick, autor do boletim Garbage Day, na década de 2010, era mais fácil para uma pessoa curiosa ter uma visão abrangente da web. No entanto, entre meados de 2021 e início de 2022, Broderick percebeu uma mudança na dinâmica, com notícias surgindo em cantos específicos da internet e tendências falsas se tornando mais comuns, apesar da falta de participação real nelas.

Tudo isso gera um efeito de experiência online que parece único para cada indivíduo, dependente de suas ideologias e hábitos de navegação. A própria ideia de popularidade está em debate: essa tendência é realmente viral? Será que todo mundo viu essa publicação ou é apenas a minha bolha da internet?  

O cenário da popularidade online está passando por uma mudança significativa, como evidenciado pelo TikTok e Facebook. Apesar das expectativas de que temas atuais dominariam as mídias sociais, relatórios de fim de ano revelam que, nos EUA, os vídeos mais populares no TikTok abordam tutoriais de maquiagem e cenas inusitadas, desviando-se de questões contemporâneas. Essa tendência também é observada no Facebook, onde memes e vídeos reciclados recebem milhões de visualizações. A Netflix, por sua vez, surpreendeu ao divulgar um abrangente “relatório de engajamento”, revelando que a série mais assistida globalmente, entre janeiro e junho de 2023, foi a pouco conhecida The Night Agent, transmitida por 812 milhões de horas. Esses padrões indicam uma redefinição da popularidade online, transcendendo as expectativas de temas atuais e destacando a diversidade de preferências do público.

Tal confusão é uma característica típica de uma internet fragmentada, que pode dar a impressão de que dois fenômenos opostos estão acontecendo simultaneamente: o conteúdo popular está sendo consumido em uma escala impressionante, mas a popularidade e até mesmo a celebridade parecem miniaturizadas, em silos. Vivemos em um mundo em que é mais fácil do que nunca ficar felizmente inconsciente das coisas que outras pessoas estão consumindo. Também é mais fácil do que nunca atribuir uma importância exagerada a informações ou tendências que podem parecer populares, mas que, na verdade, estão contidas.

Sem uma compreensão adequada do que está ocorrendo na internet, corremos o risco de sermos manipulados por outros ou de perdermos um tempo valioso em questões e controvérsias insignificantes. 

Portanto, fica aqui um alerta (e convite) para, em 2024, não desperdiçarmos energia em temas secundários, que nos impeçam de abordar as questões verdadeiramente importantes que merecem nossa atenção e oferecem insights significativos sobre as plataformas, nós mesmos e o mundo ao nosso redor.

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