Calor extremo, frio extremo, e a sensação de que, por dois minutos, o corpo ainda obedece.
por Beatriz Muroch
Uma mulher de 55 anos, escritora de perfis, entra numa sauna a 200 graus usando um gorro de lã pra não fritar o cérebro. Vinte minutos depois, ela se joga numa banheira de gelo. A cada mergulho, o corpo dela grita que aquilo é um erro. E, mesmo assim, ela volta. Duas vezes. No dia seguinte, de novo.
Ela é Taffy Brodesser-Akner (jornalista e autora de Fleishman Is in Trouble) contando pra revista do New York Times sua primeira experiência com contrast therapy — o nome bonito pra alternar calor extremo e frio extremo até o corpo desistir de entender o que está acontecendo. A prática tem uma genealogia mais antiga do que a Goop gostaria que você soubesse: os romanos já separavam suas termas em frigidarium e caldarium, salas de água fria e quente, há dois mil anos, só que sem cobrar 50 dólares a sessão nem vender aquilo como cura de ansiedade. Virou, agora, o ritual obrigatório de quem tem tempo, dinheiro e uma angústia que já esgotou terapia, Xanax e Pilates.
O que interessa aqui não é se funciona. É por que todo mundo quer tanto que funcione.
Repare no vocabulário que cerca a prática: cura inflamação, cura pânico, compulsão alimentar, raiva, eczema. Cura tudo, menos, evidentemente, o problema que gerou a busca por cura. Porque o que essas pessoas estão descrevendo não é uma terapia, é uma tentativa de recuperar, por dois minutos dentro de uma banheira gelada, a sensação de que o próprio corpo ainda responde a comandos. A psicologia tem um nome pra essa necessidade: locus de controle, o quanto uma pessoa sente que tem poder sobre o que acontece na própria vida, em vez de atribuir tudo a sorte, mercado ou destino. Carreira depende de quem contrata. Cidade depende de prefeitura. Filho depende de mil coisas que não são você. Sobra o corpo, a única linha do orçamento emocional que ainda tem sua assinatura sozinha. Você não consegue prever o mercado, mas consegue decidir ficar mais um minuto na água gelada. Isso, sozinho, já parece uma vitória.
Eu reconheço esse mecanismo de perto. Com a maternidade, boa parte da minha vida deixou de estar sob meu controle e, pra uma pessoa controladora como eu, isso é desconfortável de um jeito difícil de explicar pra quem não passou por isso. Então, marcar a ginástica virou o meu jeito de recuperar alguma sensação de comando: não é sobre o resultado físico, é sobre o simples fato de conseguir me comprometer com algo pequeno e cumprir. Existe uma paz enorme nisso, antes mesmo de considerar que a atividade física em si também ajuda. O corpo, de novo, como o lugar onde ainda dá pra vencer.
Só que tem uma ironia física nisso que a própria indústria do bem-estar prefere não destacar. Quem mais busca essa sensação de controle — pessoas estressadas, ansiosas, com o sistema nervoso já no limite — é, estatisticamente, quem mais corre risco com o choque térmico. A American Medical Association já alertou que a prática pode provocar uma euforia real, mas também é perigosa pra quem tem arritmia, pressão alta não controlada ou doença cardiovascular. Ou seja: o corpo que você está tentando dominar pela força pode, literalmente, virar contra você no processo. A busca por controle carrega dentro dela o risco de perdê-lo de vez.
Brodesser-Akner termina o texto dizendo que, um mês depois, já revira os olhos pra própria experiência — chama de mágica negra, de imperador nu. Mas volta a comprar o pacote. Essa contradição é o texto todo resumido: a gente sabe que não é ciência, sabe que é canalizar $50 numa sensação, e mesmo assim faz, porque a alternativa é ficar sem fazer nada com a angústia que sobra depois que terapia, produtividade e autoajuda já fizeram o que podiam.
O gelo provavelmente não cura nada. Mas explica muito sobre o que a gente está disposto a suportar pra sentir, mesmo que por dois minutos, que ainda manda em alguma coisa.
Créditos imagem: Cosmos