Por Lidiane Queiroz de Oliveira
Talvez você esteja feliz por ter uma desculpa como a Copa do Mundo para estar com toda a família. Talvez você esteja irritado justamente por isso — e por ter que ouvir as piadas dos seus tios antes do Natal. No meu caso, me sinto nostálgica.
Para além do fato de ganhar ser bom demais — e os brasileiros não se cansavam de ser os melhores nos anos 90 e 2000 —, estar com meu pai, irmãos e tios durante as copas está entre as memórias mais especiais da minha infância. Era divertido, me fazia feliz.
Sim, eu tinha que ouvir piadas politicamente incorretas, piadas sem graça, piadas repetidas e piadas ébrias. Era divertido, me fazia feliz.
E a ciência acaba de validar a minha “felicidade clandestina”. Uma reportagem do Washington Post reuniu pesquisas que sugerem que as chamadas dad jokes, aquelas piadas de pai que fazem mais gente revirar os olhos do que rir, cumprem uma função social importante. Segundo psicólogos ouvidos pelo jornal, o humor ajuda a fortalecer vínculos familiares e funciona como uma espécie de cola emocional.
Um estudo analisou mais de 32 mil dad jokes e concluiu que as mais populares costumam seguir receitas simples: trocadilhos, interpretações literais de expressões e respostas absurdamente óbvias. Mas o dado mais interessante talvez seja outro: as pessoas se conectam mais com piadas que envolvem personagens familiares, como pais, mães, irmãos, avós e até animais.
Os pesquisadores também destacam que o benefício não depende necessariamente de gargalhadas. Mesmo uma piada ruim pode produzir uma sensação de leveza, reduzir tensões e aproximar as pessoas. O psicólogo Steven Sultanoff compara esse tipo de brincadeira aos jogos repetitivos entre bebês e cuidadores: pequenas interações que, com o tempo, ajudam a construir intimidade, afeto e pertencimento.
Talvez seja por isso que aquelas piadas constrangedoras dos almoços de família sobrevivam a tantas gerações. Nem sempre eram engraçadas. Mas, olhando para trás, percebo que eram bem mais do que só uma piada.
* “Felicidade Clandestina” é um famoso conto e livro de Clarice Lispector. O título é um paradoxo que representa uma alegria íntima, secreta, vivida em segredo, pois não poderia ser compreendida pelos outros.
** Ilustração: Spencer Wilson for The Washington Post