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O que “Adolescence” revela sobre nossa cegueira coletiva

71 países. 24 milhões de visualizações em uma semana. Um fenômeno que transcende fronteiras e que revela a urgência e universalidade do tema.

Não, “Adolescence” não é apenas uma série da Netflix — é um espelho cruel apontado para o rosto da sociedade contemporânea. Enquanto debatemos a violência explícita, perdemos de vista a verdadeira tragédia: o abismo que se forma silenciosamente entre gerações e principalmente entre pais e filhos. 

​​Antes de prosseguir, um aviso: se você ainda não assistiu, talvez queira pular o ‘pra se aprofundar’ de hoje, já que contém spoilers. Mas não deixe de voltar aqui depois de conferir a série (e sim, por favor, assista).

O palco da alienação

A narrativa não gira em torno do “quem” ou do “como”, mas do “por quê”.  Em uma sociedade onde o bullying migrou das salas de aula para as telas dos smartphones — presença constante, implacável, 24/7 — os adolescentes navegam um oceano de vulnerabilidades sem bússola. 

A série inova ao nos negar o conforto dos cortes cinematográficos. Somos forçados a testemunhar cada segundo de desconforto, cada respiração angustiada, cada silêncio ensurdecedor. Uma experiência híbrida entre cinema, televisão e teatro que, nas palavras do Guardian, representa “a coisa mais próxima da perfeição da TV em décadas”.

Quando o normal se torna monstruoso

O diretor tomou uma decisão perturbadora: eliminar todas as desculpas fáceis. Jamie não é filho de pais abusivos. Não sofreu traumas explícitos. Não havia sinais óbvios de alerta.

Simplesmente acontece. Ele se foi. Ele está trancado atrás da porta e está em outro mundo, e os pais acham que está tudo bem.

É precisamente esta normalidade aparente que nos aterroriza. Como um adolescente “comum” atravessa o portal da radicalização sem que ninguém perceba? A resposta está dispersa em fragmentos pelo mundo digital que construímos — um ecossistema tóxico onde influenciadores como Andrew Tate oferecem pseudopaternidade e sentido de pertencimento para jovens em busca de identidade.

A masculinidade sequestrada

O manosphere — essa esfera digital predominantemente masculina — não conquista adeptos prometendo misoginia. Começa com vídeos sobre fitness, autoconfiança, relacionamentos. Gradualmente, semeia a ideia de uma masculinidade “tradicional” que estaria sob ataque, convertendo frustração adolescente em raiva direcionada.

Não é coincidência que 103 jovens entrevistados após assistirem à série mencionaram a palavra “esperança”. Eles compreendem o que nós, adultos, frequentemente ignoramos: banir figuras tóxicas sem oferecer alternativas apenas fortalece o apelo da “fruta proibida”.

O paradoxo digital

As estatísticas são claras: quando questionados sobre por que é mais difícil ser adolescente hoje, quatro em cada dez jovens apontam a tecnologia como culpada. Um quarto menciona especificamente as redes sociais.

A mídia social diz às crianças o que fazer e dizer. E se você não estiver por dentro do assunto, parecerá um tolo e se tornará um pária para muitas pessoas.” — relata uma menina entrevistada.

Para além do espetáculo

“Adolescence” nos recusa o conforto de apontar culpados. Não nos oferece catarse fácil nem resoluções simplistas. Em vez disso, nos coloca face a face com nossa responsabilidade coletiva por esses jovens que, aparentemente “normais”, desaparecem gradualmente atrás de portas fechadas — físicas e metafóricas.

A verdadeira tragédia não é o ato violento em si, mas o fato de que, enquanto os sinais estavam lá, nós — pais, educadores, sociedade — estávamos olhando para outro lugar. Talvez para nossas próprias telas.

E talvez este seja o maior mérito da série: nos fazer perceber que, enquanto debatemos seus méritos artísticos, nossos adolescentes continuam sozinhos, navegando um oceano digital para o qual não lhes demos mapa nem bússola.

A pergunta que resta não é sobre Jamie, mas sobre todos os outros Jamies que, neste exato momento, estão desaparecendo diante de nossos olhos distraídos.

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