Em um apartamento em São Paulo, um usuário coloca seus óculos de realidade virtual. Instantaneamente, sua sala comum ganha uma nova dimensão. Através da tecnologia de pass through, figuras digitais tridimensionais aparecem sobre móveis reais, interagindo com o ambiente físico. Não se trata de um jogo ou simulação arquitetônica, mas da mais recente evolução na pornografia digital.
Enquanto o mundo debate avanços em inteligência artificial e exploração espacial, uma transformação tecnológica ocorre discretamente na intimidade de milhões de residências. A pornografia em realidade aumentada (RA) rapidamente deixa o campo da ficção científica para se estabelecer como nova tendência no consumo de conteúdo adulto.
Sabemos que a tecnologia sempre moldou nossa relação com conteúdo erótico – das antigas pinturas rupestres ao VHS, internet e smartphones. Com isso, a realidade aumentada representa apenas o próximo passo dessa evolução. Diferentemente da realidade virtual tradicional que transporta completamente o usuário para ambientes fictícios, a RA sobrepõe elementos digitais ao mundo real, permitindo que performers virtuais apareçam no próprio espaço doméstico do usuário.
Empresas como Sex Like Real (SLR) e Naughty America dominam o setor globalmente, operando através de modelos de assinatura que desafiam o império dos sites gratuitos. No Brasil, iniciativas locais começam a desenvolver conteúdo adaptado para o público latino-americano.
Os números são impressionantes. A SLR relatou em 2024 um aumento significativo de usuários, impulsionado pelas melhorias técnicas em dispositivos como o Meta Pro Quest 3, que oferecem visualizações mais nítidas e coloridas. Agora, a evolução vai além da simples visualização. Entre as características mais populares estão os “scripts de brinquedos hápticos” que sincronizam dispositivos físicos com a experiência virtual, simulando sensações reais.
“Não se trata apenas de prazer sexual, embora isso seja obviamente uma grande parte,” explica David Chapman da SLR. “Trata-se de proporcionar ao usuário um ambiente seguro para explorar suas fantasias.”
O desafio da inclusão
A indústria de realidade aumentada no entretenimento adulto enfrenta um desafio significativo: a disparidade de gênero. Pesquisas do Pew Center (2024) revelam que 32% dos adolescentes do sexo masculino nos EUA utilizam headsets de RV para jogos, em contraste com apenas 15% das adolescentes. Essa diferença tem múltiplas causas. Estudos indicam maior incidência de enjoo e desconforto em mulheres ao utilizarem dispositivos de RV, criando uma barreira física real. Soma-se a isso a percepção generalizada de que essas tecnologias são desenvolvidas primariamente por homens e para homens.
No contexto específico da pornografia imersiva, a disparidade é ainda mais acentuada. A SLR reporta que apenas 20% de seus usuários são mulheres. A maioria do conteúdo ainda privilegia a perspectiva masculina heterossexual, limitando as opções para públicos femininos e diversos.
A diretora de pornografia feminista Erika Lust recentemente lançou a House of ERIKALUST, uma exposição erótica que inclui experiências de realidade virtual. “A tecnologia está quebrando limites da pornografia. Antes da RA e RV, a tela era estática”, observa Lust. “Agora, a pornografia pode se transformar em um universo completamente novo.”
Iniciativas como esta são essenciais para aumentar o interesse e conscientização sobre as possibilidades dessa tecnologia, especialmente por não exigirem o investimento inicial na compra de dispositivos de RV – uma barreira significativa que contribui para as desigualdades no setor.
O dilema dos criadores independentes
O crescimento da pornografia imersiva levanta questões sobre o futuro de plataformas como OnlyFans e criadores independentes. A produção de conteúdo de RA de alta qualidade exige investimento significativo em tecnologia e habilidades especializadas.
Reed Amber Thomas-Litman, diretora de pornografia ética e apresentadora premiada do podcast ComeCurious, reconhece os desafios, mas alerta contra o pessimismo excessivo. Para ela, a pornografia imersiva não ameaçará o domínio dos sites tradicionais tão cedo, embora isso possa ocorrer no futuro.
“Se o mercado de conteúdo erótico se voltar majoritariamente para pornografia em RV e AR, seria uma grande mudança. Essa pornografia é voltada para quem tem condições de pagar pela tecnologia, o que não é uma realidade para todos”, observa. “A VR e a AR não vão desaparecer, elas vão crescer e se tornar mais acessíveis. Em vez de ver isso como uma ameaça, devemos nos adaptar e avançar com elas.”
O impacto psicológico
O crescimento desta tecnologia traz preocupações legítimas. Relatos de usuários combinando pornografia imersiva com dispositivos automatizados, substâncias psicoativas e isolamento social levantam questões sobre dependência e dissociação da realidade.
Especialistas apontam que há especulações acadêmicas sobre o potencial viciante da tecnologia de RV, mas o tema ainda carece de investigação empírica. O efeito da intersecção entre RV e pornografia é um campo de estudo ainda mais inexplorado. Como destacado pela terapeuta sexual Eoli Halatsa Kalian, o consumo de pornografia torna-se problemático apenas quando interfere negativamente na vida do indivíduo – uma avaliação que deve ser feita caso a caso.
A pornografia em realidade aumentada representa um fascinante capítulo na longa relação entre tecnologia e sexualidade humana. Como toda inovação, traz tanto oportunidades de novas experiências quanto riscos de isolamento e dependência.
O que determinará seu impacto não é a tecnologia em si, mas como escolhemos utilizá-la – com consciência de nossas necessidades reais de intimidade, conexão e bem-estar.