Por que o “fofo” virou uma linguagem cultural tão poderosa
Gatos na internet, bebês bochechudos, pelúcias, personagens com olhos enormes, objetos em tons pastel, glitter, Hello Kitty, Labubu. O fofo está em toda parte e deixou de ser uma coisa exclusivamente infantil há bastante tempo.
Agora, ganhou até uma exposição no Louvre-Lens, na França. “Trop mignon! L’art du bonheur”, em cartaz até 18 de janeiro de 2027, reúne quase 300 obras para investigar por que algumas imagens, objetos e personagens provocam uma reação tão imediata. O percurso passa pela história da arte, por brinquedos, animais, bebês, pelúcias, pela cor rosa e pela estética kawaii, com obras de artistas como Renoir, Géricault, Rosa Bonheur, Cindy Sherman e Jeff Koons. O Louvre-Lens apresenta a exposição como uma investigação sobre a história e os efeitos da fofura na arte e na cultura.
Bom, vamos lá… A ideia de que o fofo é um fenômeno recente não se sustenta muito. Entre as peças da exposição está um pequeno objeto em forma de ouriço, encontrado em Susa, no atual Irã, e datado de aproximadamente 1500 a 1100 a.C. Há também representações de gatos do Egito Antigo, crianças e animais. O que mudou ao longo dos séculos foi o significado dessas imagens, e a maneira como passamos a reagir a elas.
Parte da explicação está na nossa própria percepção. Na década de 1940, o etólogo austríaco Konrad Lorenz descreveu o chamado Kindchenschema, um conjunto de características associado à aparência de bebês: olhos grandes, cabeça proporcionalmente maior, formas arredondadas e traços pequenos. Essas características podem desencadear nos adultos uma resposta de atenção e cuidado.
A indústria cultural descobriu há muito tempo como trabalhar com isso. É só olhar para os personagens infantis mais populares: cabeças grandes, olhos destacados, corpos pequenos, poucas arestas. Quanto mais longe da proporção humana real, mais fácil é reconhecer a intenção.
No Japão, essa linguagem ganhou uma dimensão própria. A estética kawaii se espalhou pela moda, papelaria, brinquedos, embalagens, publicidade e televisão ao longo do século XX. Hello Kitty, criada pela Sanrio em 1974, virou seu exemplo mais conhecido. Sem boca, sem uma história particularmente dramática e com um desenho extremamente simples, ela se tornou uma das personagens mais reconhecíveis do mundo. A Sanrio conta a história da personagem e de sua transformação em fenômeno global.
Kawaii acabou significando mais do que “fofo”. Passou a funcionar como uma linguagem visual própria, capaz de transformar objetos, roupas, personagens e até comportamentos. E a estética saiu do Japão. Hoje aparece em coleções de moda, decoração, restaurantes, tecnologia e produtos voltados para adultos.
É aí que entra uma das mudanças mais curiosas: a fofura deixou de ter idade.
Pelúcias e bonecos já não são necessariamente comprados para crianças. O mercado de colecionáveis cresceu em torno de adultos dispostos a gastar dinheiro em personagens que, em outra época, provavelmente ficariam no quarto de uma criança. Blind boxes, edições limitadas e figuras colecionáveis transformaram a surpresa e a acumulação em parte do produto.
Labubu é um dos exemplos mais recentes. O personagem criado pelo artista Kasing Lung para a Pop Mart virou um fenômeno global e passou a aparecer em bolsas, vitrines e redes sociais. A lógica não é muito diferente da de outros objetos de coleção: encontrar, completar a série, conseguir uma edição rara, mostrar para outras pessoas.
A história da fofura também passa por uma cor que parece ter nascido para acompanhá-la: o rosa. Só que ele nem sempre significou o que significa hoje. O rosa ganhou força na moda europeia no século XVIII, especialmente entre as elites, e passou por diferentes significados antes de se tornar tão ligado a meninas, infância e delicadeza. Não é uma característica “natural” da cor.
A exposição acompanha também essa transformação. De lá para cá, o rosa já foi associado a luxo, feminilidade, juventude, rebeldia, movimentos políticos e cultura pop. Pode aparecer tanto em uma embalagem de cosmético quanto em uma instalação de arte contemporânea. Parece uma cor delicada, mas a história dela é bem menos delicada.
E talvez seja aí que a fofura fique realmente interessante: quando ela deixa de ser apenas uma questão de gosto e começa a revelar como somos influenciados por imagens.
A fofura reduz a distância entre produto e consumidor. Uma embalagem com uma carinha simpática parece menos ameaçadora. Um objeto arredondado parece mais amigável. Um personagem transforma uma marca em alguma coisa que pode ser reconhecida, seguida e até colecionada.
Por isso, o fofo não está apenas em brinquedos. Está em cosméticos, restaurantes, hotéis, aplicativos, objetos de design e marcas de moda. O que antes parecia reservado ao universo infantil passou a ser usado para tornar produtos adultos mais desejáveis.
O Louvre-Lens também olha para esse lado menos inocente. A exposição aborda o consumo e o marketing, mas também obras que usam a aparência agradável ou infantil para tratar de assuntos mais desconfortáveis.
Isso ajuda a explicar por que o “fofo” merece ser levado a sério. Ele não é apenas uma preferência estética ou uma coleção de coisas bonitinhas. É uma linguagem visual que aprendemos a reconhecer e que pode ser usada para despertar cuidado, desejo, nostalgia, identificação ou para vender alguma coisa.
Pois bem, justamente por isso que uma exposição inteira sobre o assunto não pareça tão absurda assim. Ou, melhor: depois de olhar para tudo isso, fica difícil achar que o fofo é só fofo.

Créditos capa: imagem da instalação “Trop mignon! L’art du bonheur” no Musée du Louvre-Lens | imagem de Frédéric Iovino