O que o design tem a dizer sobre o momento em que vivemos
Antes de tudo, um recadinho: para quem chegou agora, queremos contar que o EYN ganhou uma extensão dedicada à infância: o EYN Kids, uma curadoria para formar mentes curiosas e, de quebra, alimentar o repertório dos adultos que estão criando essas crianças. Porque a infância também é cultura, referência, repertório e descoberta. E porque a gente acredita que criar crianças interessantes começa muito antes de escolher o desenho que elas vão assistir. Agora vamos à reflexão da semana que tem tudo a ver com esse universo!
Durante muito tempo, uma boa identidade visual tinha que parecer quase intocável. Tipografia certinha, cores bem ajustadas, logo funcionando em qualquer tamanho, tudo sem nada fora do lugar.
Só que… ficou muito fácil fazer coisas bonitas. Com ferramentas digitais e agora inteligência artificial, produzir uma identidade visualmente impecável virou rotina. E quando todo mundo consegue chegar naquela perfeição, ela meio que perde a graça, né?
É aí que algumas marcas estão fazendo algo diferente.
Estão chamando crianças para desenhar de verdade. Não um desenho “inspirado em infância”, de verdade mesmo.
Como assim? A letra de uma criança vira tipografia. O rabisco vira ilustração. Um desenho entra na embalagem. A Jolene, uma padaria em Londres, teve seu nome desenhado em 2018 pelo filho do fundador do Studio Frith, Frith Kerr, que na época tinha seis anos. O resultado é exatamente o que parece: uma criança aprendendo a escrever.
Na australiana Luma, marca de roupa infantil com proteção solar, foi parecido. O filho de um dos fundadores participou do rebranding. A letra de Max virou parte da identidade, agora é uma tipografia que mantém aquelas características que só a escrita infantil tem.
É uma mudança pequena no processo, mas o resultado é bem diferente. Um designer consegue desenhar uma letra torta de propósito. Uma criança? Simplesmente desenha. E por que isso importa?
Bom, a estética “infantil” não é novidade. Há tempos vemos letras manuscritas, rabiscos, ilustrações que parecem saídas de um caderno escolar. O que mudou é que algumas marcas começaram a pular a etapa de tentar reproduzir isso.
E faz sentido.
Um excelente designer consegue fazer uma identidade propositalmente imperfeita, mas existe uma coisa difícil de falsificar: alguém que realmente não sabe que está fazendo “design”.
Isso conecta com algo maior: a relação com IA. Quanto mais fácil fica produzir imagens perfeitas, mais interessante parece encontrar alguma coisa que carregue marcas do processo humano. Um erro de proporção, uma linha que escapou, uma letra que ocupa espaço demais. Algo que não foi “corrigido”.
Essa diferença importa.
Um adulto desenhando como criança continua sendo um adulto desenhando como criança. Ele sabe o que está tentando imitar.
A Chanel explorou isso em uma campanha de Dia das Mães, usou desenhos feitos pelos filhos de funcionários para representar seus produtos. A Cheerie Lane Popcorn foi além: incorporou desenhos dos filhos da fundadora à marca e ainda os colocou para pintar à mão os cartões que acompanhavam as amostras.
Nesses casos, o desenho não está ali só porque é fofinho, e sim, tem relação com a história real da marca.
Mas e quando a criança deixa de ser só o público? Essa talvez seja a parte que mais me interessa. Marcas passaram décadas tentando descobrir o que crianças querem. Pesquisas, grupos de discussão, dados de comportamento, tendências. Agora algumas estão fazendo algo mais direto: perguntar.
“Que nome você daria para isso? Qual você escolheria? O que você mudaria? Isso faz sentido para você?”
É uma mudança de posição. A criança deixa de ser só “alguém para quem o produto é feito” e passa a ser alguém que pode influenciar o que será feito.
Isso não é colocar decisões de adultos nas mãos de crianças. É reconhecer que elas veem coisas que os adultos não veem. Crianças fazem associações estranhas. Fazem perguntas que ninguém colocou no briefing. Misturam referências. Usam um objeto de um jeito completamente diferente do que o criador imaginou.
E geralmente não têm muito interesse em justificar a ideia. Só fazem.
Portanto, enquanto marcas ficaram cada vez mais dependentes de dados, social listening e análises, observar pessoas de verdade pode voltar a ter valor. Real, mesmo.
Conversar com alguém, ver como usa o produto, ouvir as palavras que escolhe, perceber o que chama a atenção antes de transformar tudo em gráfico.
Com crianças, isso fica ainda mais claro. Elas não são versões menores dos adultos. Têm repertório próprio, referências próprias, uma maneira muito particular de organizar o mundo. E isso interessa para muito mais gente do que parece.

A Radford Beauty, por exemplo, construiu parte da identidade a partir da caligrafia e dos desenhos da própria fundadora. Nenhuma criança participou. A lógica é outra, mas o princípio é parecido: colocar a pessoa real por trás da marca mais perto do que está sendo produzido.
Depois de anos de design cada vez mais limpo, calculado e polido, uma letra humana começa a chamar atenção. Uma letra de criança então? Mais ainda. E existe uma boa razão: ela não está tentando parecer espontânea, ela é.