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Quantos amigos podem tocar a sua campainha sem combinar?

Por Lidiane Queiroz de Oliveira

Não acho que Shrinking (Apple TV) seja uma série para maratonar. Ela é arrebatadora demais pela profundidade dos temas, a qualidade do roteiro, das atuações de Harrison Ford, Jason Segel e um elenco inteiro que parece protagonista ao mesmo tempo. Mas o que mais me comove não são os grandes acontecimentos. São as relações.

Em Shrinking, as pessoas estão constantemente entrando na vida umas das outras (às vezes até demais!). A vizinha ajuda a cuidar da adolescente que acabou de perder a mãe. Os amigos aparecem sem cerimônia. Do nada resolvem fazer um churrasco ou uma caminhada. Ninguém precisa marcar um grande evento para se encontrar. Existe uma rede de apoio integrada à rotina que dá inveja.

Nos últimos anos, fomos convencidos de que a geografia tinha quase deixado de importar. A internet permitiu encontrar pessoas parecidas conosco em qualquer lugar do mundo. Construímos comunidades em grupos de WhatsApp, Discords, e caixas de comentários.

Mas uma matéria recente da Vox (Why “neighborism” is having a moment) sugere que algo está mudando. Depois de décadas investindo em conexões digitais e de longa distância, cada vez mais pessoas estão voltando sua atenção para quem mora perto. O vizinho do corredor. O pai que encontra sempre no parquinho. A pessoa cujo wi-fi aparece na lista de redes disponíveis. A reportagem chama esse movimento de neighborism: a ideia de tratar proximidade como um recurso.

Pensa bem: quando alguma coisa dá errado, a diferença entre um problema administrável e uma crise costuma ser alguém por perto disposto a ajudar. O interessante é que a tecnologia, que por muito tempo pareceu substituir as relações locais, agora está sendo usada para ativá-las. Grupos de WhatsApp de vizinhos, redes de troca, pais organizando caronas, pessoas compartilhando ferramentas, comida ou informações úteis.

Não se trata necessariamente de amizade profunda. Um dos pesquisadores entrevistados pela reportagem argumenta que comunidades funcionam melhor quando as pessoas mantêm laços leves, mas confiáveis. Você não precisa amar seus vizinhos. Precisa apenas saber seus nomes e acreditar que, se necessário, vocês podem contar uns com os outros.

Isso me fez pensar em outro conceito que encontrei recentemente: doorbell friend, o amigo que pode tocar sua campainha sem avisar. Eu também gosto de chamar de amigo de sofá. Aquele que não exige programação, produção ou performance. Dá para conversar, ficar em silêncio ou até tirar uma soneca (minhas amigas Mariana e Milena gostam muito desse conceito!). 

Talvez o sucesso desses conceitos revele um cansaço coletivo. Durante anos buscamos ampliar nossas redes. Agora parece existir um desejo crescente de aprofundar aquilo que está ao alcance de uma caminhada.

Como bem resume um dos entrevistados da reportagem da Vox: “tentamos todo o resto. Talvez seja hora de tentar uns aos outros”.

* Ilustração: Laura Simonatti para Vox

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