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Quem sua, não manda!

Termocracia: quem pode se refrescar decide, quem ferve só sobrevive. E isso muda da política ao desejo.

Outubro em Londres. Céu cinza, chuveiro quente, chá fumegando na cozinha. É assim que a Protein, bureau de tendências inglês, abre um texto que li esta semana. E logo depois avisa: não se engane com o friozinho, o calor não foi embora, só mudou de lugar.

A tese deles é que o calor deixou de ser assunto de meteorologia e virou assunto de cultura. Está no clima, claro. Mas também na política cada vez mais inflamada, na avalanche de opiniões quentes, no boom dos perfumes sensuais. Calor como intensidade, pressão, urgência. Tudo fervendo ao mesmo tempo.

Comecemos pela cabeça.

A gente sempre usou o calor pra mexer no corpo. A medicina ayurvédica fala do Agni, o fogo interno da digestão e da clareza mental. Nos anos 2000 veio o hot yoga. Nos 2010, as Kardashians suando dentro de roupa de sauna. Hoje, sauna seguida de banheira de gelo. O calor sempre foi ferramenta. A novidade é que agora quem está na mão dele somos nós.

Na Inglaterra, quando o calor se prolonga, as internações por saúde mental sobem 10%. E mesmo quem não tem diagnóstico nenhum sente: irritação, ansiedade, cansaço mental, cortisol lá em cima. O calor não muda só a temperatura do corpo. Muda o jeito como a gente pensa.

Aí entra a parte que me fez parar.

O filósofo Paul B. Preciado tem um nome pra isso: termocracia. A ideia é que poder e acesso ao frio andam juntos. Quem mais produz calor, com estilo de vida, consumo, tecnologia, é justamente quem mais consegue se refrescar. Um exemplo que a Protein traz: neste verão, um único data center na Irlanda recebeu quase 5 milhões de litros de água num dia, enquanto as casas em volta estavam proibidas de usar mangueira.

Preciado vai além. Quem está fervendo pensa pior, decide pior, não tem energia pra contestar nada. O calor cansa, e gente cansada não muda o mundo. Frio, nessa lógica, é poder, literalmente.

E o mercado já entendeu. A Dyson lançou este ano um ventilador de mão por 99 libras, com campanha colorida, modelos impecáveis e copy leve. Um articulista resumiu bem: o produto transforma o ato de se refrescar, que é proteção básica de saúde, em estilo de vida aspiracional. Se refrescar virou acessório.

Curioso que a saída mais inteligente não está no futuro, e sim lá atrás. No Irã, os yakhchals, construções de barro em forma de cúpula, guardavam gelo no deserto há séculos. Arquitetos estão voltando a estudar técnicas de resfriamento com mais de 4 mil anos. Sal, barro, água, sombra, brisa, nada disso precisa de tomada. Agora, o lado mais gostoso da história.

O calor tem algo que desperta o primitivo na gente. Pele à mostra, suor, aquela preguiça boa. A literatura sabe disso há muito tempo. Em Reparação, de Ian McEwan, um personagem diz que a Inglaterra numa onda de calor vira outro país, e que lá as regras mudam. É exatamente essa sensação de transgressão que carrega a carga erótica.

Tem ciência por trás. Sol e calor estimulam serotonina, o suor tem feromônios. A Vyrao, marca de perfumes que se apresenta como baseada em neurociência, lançou o Ludatrix, com pimenta de Sichuan, almíscar, rosa e látex, prometendo aumentar a sensualidade em 81%. Lançado justamente quando o sexo anda em baixa no mundo todo, alô recessão do prazer!

Mas tem um porém: o calor que acende é o calor moderado. Um estudo da Universidade da Califórnia analisou 80 anos de dados e viu que os nascimentos nos Estados Unidos caíam nove meses depois de dias acima de 27 graus. Passou do ponto, o desejo derrete junto.

E aí as marcas ficam numa saia justa. Como continuar vendendo o verão como festa, pele bronzeada e romance quando o verão de verdade está deixando todo mundo exausto? A pergunta não é parar de vender prazer, é perceber que a estética do verão já não bate com a vida real.

Teve quem resolveu isso do jeito mais improvável. A Headline Newds, série criada pelo diretor Adam McKay, de A Grande Aposta, coloca criadoras do OnlyFans explicando a crise climática. Uma fala de energia solar enquanto tira a roupa. Duas lutam enquanto contam que 57 empresas respondem por 80% da poluição de carbono dos últimos dez anos. Parece piada, mas a lógica é séria: diante de ameaças grandes demais, o cérebro desliga.

E tem uma última camada, mais doméstica. Se você já trabalhou de blazer em pleno verão por causa do ar no máximo, saiba que não é frescura. Um estudo publicado na Nature Climate Change em 2015 mostrou que a fórmula usada pra definir a temperatura dos escritórios foi calculada nos anos 1960 com base no metabolismo de um homem de 40 anos e 70 quilos, até o termostato tem dono.

Pois bem, quem decide a temperatura da sala? Por muito tempo achamos que luxo era o frio. Daqui pra frente, aposto que o luxo vai ser a sombra. Aquela que não precisa de tomada, nem de cartão, nem de campanha bonita, e que ninguém deveria ter que comprar.

Fonte: Protein

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