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E se seus filhos não quiserem a sua coleção de arte?

Imagine passar décadas construindo uma coleção de arte. Escolhendo artistas, acompanhando exposições, negociando obras, gastando dinheiro e, sobretudo, construindo uma história em torno daqueles objetos. Agora imagine que, quando essa coleção chegar aos seus filhos, eles simplesmente não saibam o que fazer com ela.

É mais ou menos esse o problema que está começando a aparecer no mundo da arte.

Nos próximos anos, uma quantidade gigantesca de patrimônio vai passar dos baby boomers para as gerações seguintes. E, dentro dessa transferência, está uma estimativa de quase US$ 1 trilhão em obras de arte e colecionáveis. O número é impressionante, mas talvez a parte mais interessante da história seja outra: quem vai querer ficar com tudo isso?

Porque herdar um quadro não é exatamente como herdar dinheiro.

Dinheiro você divide. Uma casa você vende. Uma ação você liquida. Uma pintura, especialmente quando não é de um artista consagrado, pode ser um problema logístico, financeiro e até emocional. Onde guardar? Para quem vender? Quanto vale hoje? E, principalmente: alguém ainda se importa com ela?

A história da família do artista americano David A. Vaughan, contada pela Bloomberg, é um bom exemplo. Depois da morte dele, em 1975, seus filhos ficaram com cerca de 90 pinturas, além de desenhos e esculturas. A coleção permaneceu praticamente intacta por décadas e agora está chegando aos netos, que, apesar de reconhecerem a qualidade de parte das obras, estão tendo dificuldade para cuidar delas e encontrar um destino para tudo.

E essa talvez seja a parte mais fascinante: o valor de uma obra não está apenas nela. Está também no olhar de quem a vê.

Os boomers cresceram colecionando determinados artistas e movimentos que, naquele momento, representavam ousadia, ruptura e sofisticação. Para as gerações seguintes, porém, algumas dessas referências perderam relevância. O gosto e contexto mudam.. O que parecia indispensável em uma sala há 40 anos pode simplesmente não conversar com quem está chegando agora.

E isso já está acontecendo em outras áreas da cultura. A cada geração, alguns nomes entram para o cânone enquanto outros desaparecem silenciosamente. A arte talvez seja apenas uma versão particularmente cara desse processo.

Existe ainda uma ironia: quanto mais profissionalizado ficou o mercado de arte, maior ficou também a quantidade de arte produzida. O número de artistas acompanhados por bases de dados de leilões, por exemplo, cresceu de cerca de 8.300 em 1988 para mais de 90 mil em 2012. É muita obra competindo pela nossa atenção, e a memória cultural tem espaço limitado.

Museus também não são uma saída tão simples. Eles recebem doações, mas têm espaço, orçamento e critérios de aquisição limitados. E uma obra que a família considera importante pode não ser relevante o suficiente para entrar no acervo de uma instituição.

No fim, a pergunta deixa de ser “quanto vale?” e passa a ser “quem ainda vai querer isso?”

Talvez uma pequena parte dessas coleções seja preservada exatamente como seus donos imaginaram. Outra parte será vendida, doada ou redescoberta por alguém que enxergue nela algo que a geração anterior já não via. E uma quantidade enorme provavelmente vai simplesmente envelhecer em depósitos, perder valor cultural e, eventualmente, desaparecer.

É um lembrete meio incômodo de que patrimônio não é sinônimo de legado.

Você pode deixar milhões para alguém e ainda assim não conseguir deixar o seu olhar. E talvez essa seja a parte mais imprevisível de qualquer herança: não sabemos o que as próximas gerações vão considerar precioso. Nem mesmo quando aquilo custou uma fortuna.

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