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Kink: vivendo a sexualidade fora da curva

Toda quinta-feira, o jornal Evening Standard entrega a ES Magazine nos metrôs da cidade e eu, desde que me mudei para Londres, sou viciada nela – não perco uma. Semana passada, me deparei com uma matéria intitulada, ‘Sex In The City: Don’t iron out your kinks’, e resolvi definitivamente trazer o tema (novo para mim, confesso) para a EYN. O artigo falava sobre ‘kink’ e como muitas vezes as pessoas sentem vergonha, culpa e nojo diante do que as excitam e do que desejam explorar sexualmente. Até que elas encontram a comunidade kink, uma espécie de revolução sexual, que pode até ser curativa. 

De antemão vale reforçar que kink não é um movimento, mas sim um estilo de vida de quem se propõe a viver a sexualidade fora da curva. Sendo assim, kink é qualquer coisa fora do que você considera ‘normal’, mas é diferente do fetiche comumente conhecido como excitação causada por um objeto, parte do corpo ou atividade sexual. Portanto, por exemplo, um fetichista é uma pessoa cuja identidade kink é predominantemente impulsionada por um ou mais fetiches específicos.

Mas, afinal, o que é considerada uma prática kinky?

O estilo inclui coisas como o swing (troca de casais), pompoarismo (exercícios pélvicos), dupla penetração, exibicionismo e até mesmo o bom e velho sexting – prática que ganhou mais e mais popularidade durante a pandemia. Dentre as mais exóticas, tem o king out, que proíbe a penetração e só permite beijos, carícias e lambidas, e o kokigami, prática japonesa em que se embrulha o pênis com a ideia de oferecer à parceira seu presente mais apreciado. 

Ainda no metrô, reflito como de fato comunicar-se durante o sexo não é coisa fácil. Também tento lembrar de conversas com amigas sobre essa ‘sexualidade fora da curva’, mas não me recordo. É triste pensar como nós estamos imersos em contextos sociais e culturais que tratam as muitas formas de expressão sexual como tabu, levando aqueles que buscam o prazer sexual a se sentirem de alguma forma uma pessoa má e até envergonhada e culpada. Ainda é difícil sentir-se confortável com o conceito de ‘liberdade sexual’ bem como formar uma visão positiva da expressão sexual diversa – uma que pode incluir um fetiche incomum ou uma orientação sexual alternativa. 

Para muitos, verbalizar exatamente o que se quer para um possível parceiro sexual é tarefa difícil, senão impossível, mas é bem aí onde quero chegar e o que achei interessante. Muitas práticas que o kink envolve podem ser traduzidas e utilizadas entre aqueles que não estão necessariamente no lifestyle em si. Isso porque kink enfatiza a comunicação por meio da negociação (definindo o que você e seu parceiro sexual querem), estabelecimento de limites (escolhendo ‘palavras de segurança’ para usar se/quando você não se sentir confortável) e cuidados posteriores (verificando um com o outro e discutindo o que funcionou e o que não funcionou).

‘Fazer parte dessa comunidade kink pode ser chave para uma (re)exploração sexual, assim como foi para Florence Bark, co-apresentadora do podcast F***s Given. Uma auto-descrita maníaca por controle, ela diz que encontrou um lugar para se soltar e ser vulnerável, enquanto a ênfase na comunicação a mantém segura.’

A verdade é que dificilmente existe uma pessoa que não seja kinker e o primeiro passo para remover tal tabu que rodeia o tema é justamente uma característica crucial nisso tudo, o diálogo. Na realidade, o kink pode ser um veículo para as pessoas abraçarem sua vulnerabilidade, manterem laços íntimos com várias pessoas e aprenderem a se comunicar e negociar preferências sexuais variadas sem julgamentos. 

Kink não é “estranho” ou algo para sensacionalizar. Quando alcançamos uma maior compreensão das práticas sexuais não normativas, normalizamos identidades que são marginalizadas, e quem sabe – podemos até aprender uma coisa ou duas, tanto dentro quanto fora do sexo.

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